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Ao longo de sua carreira, David Lynch dirigiu dois filmes que fogem de seu estilo peculiar, dotado de uma atmosfera sombria, atraente e surrealista: “The Straight Story” e “O Homem Elefante” (vamos esquecer “Duna”). Este segundo, que lhe rendeu sua primeira indicação ao Oscar, é o trabalho de um homem apaixonado por seu protagonista. Poucos personagens na história do cinema são tão doces, gentis e puros quanto John Merrick.

A essa altura, todos sabem que se trata de uma história tristíssima sobre um homem com uma deformidade rara. Nesta revisão, eu fiquei impressionado com o bom gosto de Lynch, que, em vez de apelar para o exibicionismo da figura central, mostra somente aquilo que precisamos ver. Claro, há momentos pesados, que contêm humilhações severas; todavia, o real interesse de Lynch é explorar os contrastes humanos, colocando o protagonista, gradualmente, em contato com a cordialidade que lhe foi negada até então. No circo, Merrick é chamado de “O Terrível Homem Elefante”. Frederick Treves, um cirurgião, fica impactado com o anúncio e decide visitá-lo, com a intenção de estudá-lo. A rua suja e esfumaçada é o corredor para um ambiente escuro, onde a tal “aberração” fica. 

Treves é uma figura fascinante, pois, embora tire Merrick da vida de atração circense e o trate com cuidado, tende a usá-lo para se autopromover no mundo da ciência, mantendo-o nos holofotes para que olhos horrorizados o observem. Treves, diferentemente de Bytes, antigo “dono” do protagonista, não age de caso pensado, questionando, sempre que possível, suas ações e sua bondade. Treves está interessado no ser humano; em trazer o jovem traumatizado para a superfície. Lynch ilustra brilhantemente a evolução da relação entre os dois. Primeiro, ao posicionar Merrick, assustado, no canto do quadro, em contato com as sombras. Depois, quando o cirurgião se aproxima e insiste para que o protagonista fale algo, o cineasta os enquadra de maneira que os vejamos de frente um para o outro – dessa forma, Lynch nos informa que Treves conquistou a confiança plena de Merrick. A partir daí, a sociedade descobre que o homem elefante é um sujeito inteligente e educado que se interessa por arte e que já leu a bíblia. 

O simples ato de perguntar como ele está é digno de comoção. “Todos são muito amáveis”. Em outro momento, Treves o leva para conhecer sua esposa, que, ao cumprimentá-lo, é recebida com choro: “É que eu não estava acostumado a ser tão bem tratado por uma linda mulher”. Não são respostas programadas; são disparos comoventes de um jovem que sonha em se sentir pertencido e amado por aqueles que ama. Merrick gosta de estar cheiroso e bem vestido, imaginando cenários diversos; no entanto, o que mais o enche de alegria é a possibilidade de dizer: “Oh, meus amigos”. Quando Mrs. Kendal, uma renomada atriz, lê uma parte de “Romeu e Julieta” com ele, Merrick, ao perceber que há uma cena de beijo, pula a fala para não constrangê-la. Kendal é certeira ao chamá-lo de Romeo, não de homem elefante; o peso da obra está neste gesto. Há pessoas que, por uma incapacidade de alcançar um mínimo degrau de complexidade, sentem apenas pena do protagonista. Quem se dispõe a conhecê-lo, percebe que ali está a personificação da pureza que se perdeu em meio ao ceticismo. 

Lynch nunca alivia totalmente a experiência. O lado perverso e maldoso da humanidade ainda percorre o caminho de Merrick, que chega a ficar preso numa gaiola. No auge da humilhação, na icônica sequência na estação de trem, ele solta o seu grito por piedade: “Eu não sou um animal! Eu sou um ser humano!”. O desfecho, agridoce pelo inevitável, é a realização de um sonho. A magia do teatro ao seu alcance, num mundo de possibilidades. Lynch nunca fez tantos espectadores se debulharem em lágrimas. 

Anthony Hopkins está excelente na pele de Treves, combinando serenidade, empatia e uma boa dose de autocrítica. É difícil se estender a qualquer outra performance que não seja a de John Hurt. Antes de falar, sabemos o que Merrick sente, graças à sua corporalidade e aos sons que produz. Hurt incorpora uma elegância peculiar ao personagem, ao mesmo tempo em que expõe sua dificuldade para se locomover. Seu trabalho vocal também é meticuloso. A dicção enferrujada, aos poucos, dá espaço a uma voz que denota uma ingenuidade encantadora. Poucos atores alcançam este nível cobertos por prótese. Hurt entrou para a história, mesmo tendo sido derrotado por Robert De Niro no Oscar. 

“O Homem Elefante” é um filme essencial para a vida de qualquer pessoa.

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