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“The Shout” é um filme inquietante que usa sua interessante trama para ser uma experiência sensorial. Quando falamos de cinema, falamos de áudio visual. Este trabalho de Jerzy Skolimowski leva tal percepção bastante a sério. Desde o início, no jogo de críquete no hospício, somos introduzidos a uma atmosfera estranha, que nos faz questionar o que vai acontecer. 

Crossley, considerado um gênio, e Robert são os responsáveis por contar os pontos da partida. O primeiro, cuja personalidade sintetiza a atmosfera idealizada por Skolimowski, decide contar a história de um homem que perdeu a mulher que amava. Anthony é um músico que, aos fins de semana, toca órgão na igreja. Após uma missa, Crossley o aborda e, com seu jeito importunador, se convida para almoçar em sua casa. O sobretudo preto, a alta estatura e a palidez conferem a ele um aspecto vampiresco. A refeição, feita por Rachel, mulher de Anthony, não demora a se tornar desconfortável e o que deveria ser uma rápida visita se transforma num jogo de cunho sobrenatural.

“Choca vocês, que eu confesse ter matado meus filhos?”, pergunta Crossley, que passou 18 anos no Outback australiano, onde se casou com uma aborígene. Ele afirma ter aprendido magia negra, em especial, um grito mortal. A essa altura, Rachel já se retirou da mesa, mas Anthony, que passa os dias experimentando sons no estúdio, fica fascinado com a ideia de um grito de tamanha frequência. Skolimowski usa o trabalho de Anthony a favor da fomentação de uma atmosfera bizarra, brincando com as possibilidades do design de som. Quando Crossley fala sobre a escala de seu grito, capaz de matar pessoas a uma considerável distância, o cineasta opta por um plano bem aberto, ilustrando a potência do estrondo. 

Aos poucos, temos sinais de que Crossley passou a exercer um tipo de domínio na casa, como, por exemplo, o plano-detalhe de sua boca, alguns movimentos de câmera que indicam “algo a mais” e, principalmente, o plano em que vemos sua imagem refletindo no espelho que fica sobre a cama do casal. No momento do grito, que realmente assombra, Crossley é enquadrado a partir de um contra-plongée, tornando-o ainda mais imponente. A expressividade e a força das imagens de Skolimowski elevam o filme ao patamar de arte visceral; nas mãos de um diretor menos imaginativo, “The Shout” seria apenas curioso. Crossley vai além, enfeitiçando Rachel, que assume um fascínio por ele. Anthony é rebaixado a um patamar secundário na própria casa, o que é pontuado pela montagem, que relaciona imagens suas correndo com os outros dois na cama. A trilha sonora também compõe bem esse clima desnorteante. 

Lembrando que, enquanto a história é contada, o jogo de críquete no hospício continua. Não há respiros em termos de tom – a todo instante, nos sentimos parte de algum pesadelo bizarro. A presença de Crossley é tão intoxicante, que, quando ele vai embora, o casal parece ter tirado um caminhão das costas. Em seus minutos derradeiros, o filme chega a conclusões pouco reveladoras; o impacto não cai, mas o frescor não é o mesmo. 

Alan Bates e Susannah York estão ótimos, completamente entregues à loucura. John Hurt é quem traz os traços mais humanos, quase como se fosse um de nós ali, assustado e incomodado. “The Shout” é uma experiência desafiadora e que representa uma vitória cinematográfica por parte de Skolimowski.

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