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Jeff Buckley foi uma espécie de anjo que desceu por alguns anos, cumpriu sua missão e retornou ao céu. Ele cantava músicas de Leonard Cohen e Morrissey como se suas fossem. Sua voz era vulnerável e doce, mas sua música tinha uma energia pesada. Buckley era um poeta puro; não no sentido de ser “limpo”, mas de falar sobre amor, sexo, alegria e depressão com a mesma intensidade. Em tempos industriais e mecânicos, artistas deste naipe fazem falta.

Em 1994, Buckley lançou “Grace”, seu único álbum, e entrou para a história da música, combinando influências de Led Zeppelin, Bob Dylan e Nina Simone. Seu pai, Tim, um cantor importante que também faleceu precocemente, o abandonou precocemente, ainda na infância. Buckley não queria carregar qualquer fardo e não queria ser como o pai, a fim de estabelecer uma carreira baseada na sua verdade. “Sem uma vida comum, não há arte”. Antes de partir, Buckley pode ser agraciado por seus ídolos, como, por exemplo, Paul McCartney e Robert Plant. Em um show em Londres, Thom Yorke, impactado por sua performance, viu-se inspirado para compor “Fake Plastic Trees”. A alcunha de “Novo Bob Dylan” e a pressão da produtora por um novo “Grace” não faziam sentido para Buckley, que escrevia sobre coisas que são detectáveis somente na introspecção, com tempo e espaço. Ele chegou a se questionar se era uma fraude; se aquela estreia tinha sido sorte ou obra do acaso. Ao ser perguntado sobre suas maiores influências, Buckley não mente: “Amor, raiva, depressão, alegria e… Zeppelin”. É justamente por isso que ele foi capaz de interpretar “I Know It’s Over”, dos Smiths, com tamanha propriedade.

Neste documentário, a diretora Amy J. Berg, captando a essência do cantor, oferece um retrato delicado e honesto, encantando a todos com um acervo impressionante. O voiceover, as entrevistas e as imagens de arquivo de Buckley são realmente especiais, pois, além de lindíssimas, revelam que ele era exatamente o que cantava: um jovem sensível, generoso, agradecido e atormentado. Para os fãs de Buckley, este é um filme obrigatório. Ele chegou a ser considerado o galã de uma geração, o que salienta a importância de se manter fiel a si. Buckley, em suas fotos e apresentações, demonstrava toda sua vulnerabilidade, fugindo de padrões de virilidade. Ele chegou a dizer que sabia que não ficaria muito tempo aqui. Há algo de místico em sua partida. Ele não morreu drogado ou embriagado – foi quase como um acordo de paz. Buckley veio, fez um álbum e pronto. Talvez sua carreira não decolasse depois. Não importa, ele sempre será o retrato de um período e da validação de expor seus medos e inseguranças. Ele sempre será o cara que subiu no alambrado para assistir Page e Plant. E, mais: sempre será amado por aqueles que o conheceram. Os relatos registrados por Berg revelam o vazio deixado por alguém que não pode ser substituído.

Em termos de estrutura, a narrativa exala fluidez, sendo abastecida por materiais inéditos, de diferentes formatos, alternando entre shows, fotos, entrevistas, desenhos e outras imagens de arquivo. O filme está sempre nos contando algo novo sobre Buckley. Na verdade, fazendo-nos sentir sua energia etérea e suave – sua voz chega a ser arrepiante. “It’s Never Over, Jeff Buckley” é uma merecida homenagem a um grande artista.

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