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Em tempos sombrios para a comédia, “Friendship” é um verdadeiro sopro de alívio. Fazia tempo que eu não me surpreendia com o potencial cômico de um filme. O diretor Andrew DeYoung e o ator Tim Robinson surgem como heróis de uma pátria à deriva, com poucas almas restantes.

Craig é uma figura excêntrica. Ele compra roupas em apenas uma loja, acreditando que as demais não fabricam peças para o seu tamanho, e seu trabalho envolve manter pessoas viciadas em produtos. “Saiu um novo filme da Marvel. Dizem que é insano” não é o tipo de comentário proferido por qualquer um. Tami, sua esposa, fala sobre o antigo parceiro com um entusiasmo pouco convencional. Não é de se impressionar que Craig não tenha amigos e que seja alvo de chacota no trabalho. Ciente da solidão do marido, Tami fica contente quando Austin, o vizinho, o convida para tomar drinks. A estranheza inicial, destacada por um plano aberto, não demora a se esvair, dando espaço a um caloroso clima de camaradagem. Simpático e socialmente ativo, Austin é meteorologista e toca numa banda. Na cena do show, a câmera lenta e a luz vermelha enfatizam o estado hipnótico no qual Craig, obcecado pelo novo amigo, se encontra. De repente, escutar música punk e comprar uma bateria viram prioridades; e se Austin o chamar para uma “grande aventura”, ele vai, mesmo que precise interromper uma importante reunião.

DeYoung investe na subjetividade do protagonista. O futuro, para Craig, envolve um carro amarelo, uma iluminação radiante e os demais o considerando o herói da camaradagem. O roteiro, escrito pelo próprio DeYoung, apresenta, nas entrelinhas do humor, um homem que, por mais patético e infantil que seja, sonha em ser querido. Ao conhecer os outros amigos de Austin, Craig fica claramente nervoso e acaba “pisando na bola”. A sensação de pertencimento, ainda mais para um sujeito inseguro, é como uma droga altamente viciante. A exclusão, nesse caso, é um disparo que atinge o peito, o cérebro e a taxa de abstinência. Quando não existe amor-próprio nem entendimento para deixar a poeira baixar, os traços de loucura e psicopatia vêm à tona. A trilha sonora e alguns close ups evocam uma forte perturbação, incrementando novos sabores ao delírio cômico que já dominava a narrativa – nesse sentido, vale ressaltar o impecável timing da montagem. Em suas novas tentativas de se enturmar, Craig prova ser tão jeitoso quanto um elefante numa pista de patinação e, ao tentar replicar as aventuras de Austin com a esposa e o filho, atinge resultados que causariam inveja até no mais patético dos seres.

Um exemplo da ecleticidade do humor de DeYoung está numa rápida cena que se passa no shopping. O simples fato de vermos o quão enfadonhamente bizarro aquele lugar pode ser é suficiente para atrair boas risadas. Em sua realidade narcisista, Craig perde a noção do que é permitido pela lei e socialmente – suas ações e reações soam naturais. O julgamento que fazemos dos personagens é uma outra evidência do excelente trabalho de DeYoung. Austin está correto em suas atitudes e nutrimos uma forte empatia por ele; todavia, não podemos deixar de sentir pena de Craig. Estamos falando de um sujeito de traços psicóticos, incapaz de ser afetuoso com sua esposa, alheio enquanto pai e que não mede esforços para botar seu trabalho a perder. Ainda assim, vemos a criança mascarada de adulto, sedenta por atenção. Sua casa, apagada, é um reflexo da pouca valorização que ele dá àquilo que tem e ao buraco no qual se enfia. Essa dualidade só é alcançada graças à performance de Tim Robinson, que consegue ser, simultaneamente, inofensivo e imprevisível. Frases como “Não tenho medo de você. Eu comprei uma van hoje” soam muitíssimo bem em sua boca.

Paul Rudd é o ator perfeito para dar vida ao coadjuvante simpático e convencional. Seu carisma é sempre bem-vindo. E, claro, eu não poderia deixar de citar a sequência do Subway, que é, muito provavelmente, a mais engraçada da década. “Friendship” é uma maravilha do início ao fim e está fadado a se tornar um clássico cult.

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