O Corretor (1991)
Enquanto assistia a “The Adjuster”, os nomes de David Lynch e Todd Solondz vieram à minha cabeça. Ao subir dos créditos, tive a certeza de que somente Atom Egoyan seria capaz de dirigir algo assim. Seus filmes envolvem o espectador lentamente e “The Adjuster” talvez seja o melhor exemplo dessa qualidade do realizador canadense. Há uma austeridade desconcertante em sua direção, que contrasta com a estranheza do que vemos. Egoyan elabora um universo similar ao nosso, mas com alguns parafusos levemente desatarraxados.
Introduzido imerso em sombras, Noah é um corretor de seguros bastante dedicado. Ele não dorme, vigiando a janela e esperando por telefonemas que o informem sobre novos incêndios. Antes que a vítima tenha tempo de processar o que acabou de lhe acontecer, o protagonista já está lá, demonstrando apoio emocional e colocando-se à disposição para garantir a melhor apólice possível. Hera, sua esposa, trabalha no departamento de censura de filmes, passando os dias assistindo a cenas obscenas, muitas de cunho sexual, que devem ser cortadas. Ela leva uma câmera em sua bolsa e grava tudo para mostrar à sua irmã, uma mulher reclusa que não fala inglês. Em paralelo aos personagens centrais, acompanhamos um casal milionário que, aparentemente, está em busca de “algo a mais”; algo que apimente a relação ou dê um pouco de significado às suas existências. Noah e Hera mal se tocam. Não há envolvimento real e companheirismo ali, apenas a manutenção de uma imagem. E, diferentemente de filmes que lidam com casais assim, “The Adjuster” assume que esse é o relacionamento padrão. Noah é um sujeito pouco disposto a discutir. Sua voz, sua expressão corporal e seu rosto denotam serenidade e melancolia. Eles vivem numa casa isolada, que deveria fazer parte de um complexo de residências cuja construção, devido a uma crise financeira, foi interrompida. A propriedade é enorme, mas abriga apenas uma casa, alguns outdoors e um vazio notável. De certa forma, trata-se do lugar perfeito para sintetizar o casal: eles fingem viver uma relação saudável e moram numa região que “finge” ser acolhedora. Os livros falsos na parede evidenciam o caráter cenográfico daquele ambiente – será que os atores que lá vivem conseguirão manter seus papéis por muito tempo?
Noah passa os dias com seus clientes, interagindo, também, sexualmente. Em determinada cena, o protagonista discute detalhes dos objetos perdidos enquanto faz sexo com a cliente. Esse é um dos exemplos mais concretos da tragédia de Noah: ele é um corretor de seguros, nada além disso. Noah é apenas um nome; o ser humano que cresceu e se casou basicamente não existe. Ele não fica acordado por amar a profissão, mas porque não tem ideia do que fazer fora dela. O sexo, mais do que um envolvimento carnal, é uma oportunidade de vestir por mais tempo a máscara do corretor. Noah é visto por seus clientes como uma espécie de santo – não deixa de ser irônico o fato de, em casa, ele brincar com um arco e flecha –; no entanto, o que podemos dizer de alguém que nasce do fogo? Sem os incêndios, o protagonista inexiste, sendo somente a carcaça de um homem que não encontrou uma versão autêntica de si. Nos últimos minutos, por meio de um flashback, descobrimos que Noah conheceu Hera no exercício de seu ofício. Podemos imaginar que, no início, deve ter sido excitante, mas o casamento faz com que ela conheça o outro lado do marido. A grande questão é: não há nada lá. Esse vazio sentido por Hera cresce em silêncio, chegando a um nível insustentável.
É complicado categorizar “The Adjuster”. Eu diria que é uma sátira instigante e misteriosa sobre um homem alienado. Hera é uma censora que é censurada enquanto mulher. Não escutamos sobre seus desejos e sonhos; seu marido nunca está em casa. Arsinée Khanjian, apesar de exibir um senso de independência, traz uma considerável fragilidade à personagem. O grande Elias Koteas oferece uma performance que combina inércia emocional e constante movimentação, estabelecendo a persona do corretor ao mesmo tempo em que constrói suas nuances. Como na maioria dos filmes de Egoyan, esses são personagens introspectivos, que demandam um certo nível de atenção por parte do espectador.
“The Adjuster” é uma experiência incomum que, em seu último plano, atinge um grande impacto.

