Speaking Parts (1989)
Após os excelentes “Next of Kin” e “Family Viewing”, Atom Egoyan dirigiu “Speaking Parts”. O Canadá é uma terra intrigante. Aparentemente, pouco acontece lá, mas a quantidade de artistas provocativos e complexos nascidos na terra do maple syrup é impressionante. Egoyan tem seus temas prediletos. Aqui, ele aborda a falta de comunicação e a relação dos seres humanos com o vídeo, um advento, naquele período (o filme é de 1989), revelador – ainda mais com a presença de locadoras.
Por incrível que pareça, o título é a chave interpretativa. Speaking Parts são papéis em que o ator tem falas, deixando de ser um figurante. Lisa, camareira num hotel, é obcecada por Lance, seu colega. Em suas tentativas de interagir, ela é ignorada, mantendo uma voz melancólica e o corpo curvado. Egoyan explora a noção de cotidiano, trazendo à tona o quão monótona é a realidade de Lisa, que se debruça sobre os vídeos como uma forma de escape. A protagonista aluga filmes em que Lance está presente, sempre ao fundo, como um figurante. Observá-lo significa experimentar algum tipo de intimidade. Ele é o figurante do cinema; ela é a figurante da própria vida, presa a um mundo de negações. “Não há nada de especial em palavras”, diz a protagonista, referindo-se aos papéis de Lance e, inconscientemente, a si mesma. Na lavanderia, no subsolo, nos quartos e nas tentativas de dialogar com quem não a quer, Lisa assume uma “inexistência”. O vídeo, assim como as redes sociais na contemporaneidade, veio para suprir vazios? Cada vez mais distante da realidade, Lisa flerta com uma desconexão irreversível. Em seus planos, Egoyan fica bastante tempo com os personagens, estudando a solidão e o comportamento corporal. Sua câmera fica a uma certa distância – por vezes, posicionada atrás de portas -, explorando os espaços que potencializam a sensação de vazio. Em determinado momento, Lisa, que se aproxima do dono da locadora, se oferece para ajudar na gravação de um casamento. Parece um detalhe irrelevante, mas ela é a pessoa que fica atrás da câmera, fora do foco de luz; ela é a “figurante” naquela situação.
Lance, ao se relacionar com Clara, uma roteirista hospedada no hotel, ganha a sua primeira chance de atuar (um “speaking part”). Seu arco é sobre conhecer os meandros da indústria. O fato de ele não ser mais um figurante no cinema não significa que tenha deixado de ser um figurante em sua própria vida. Diante do produtor, vivido por David Hemblen como um sujeito frio e ameaçador, Lance não tem outra opção a não ser ficar calado e obedecer a ordens. O afastamento de Clara e a mudança no roteiro o afetam, e perceber que não há nada a ser feito é ainda pior do que não ter uma única fala. As reuniões são quase todas realizadas por vídeochamadas, ressaltando o distanciamento emocional entre os colaboradores. E mais: na medida em que Clara é demitida, os encontros entre ela e Lance também passam a ser virtuais – o vídeo como símbolo de afastamento, da realidade ganhando contornos soturnos. Egoyan pinta um cenário extremamente áspero e cínico da indústria cinematográfica, obrigando seu personagem a retornar ao mote da narrativa: Lance precisa decidir se quer ter um “speaking part” na própria vida. Esses personagens, silenciosos, precisam começar a falar. Egoyan e Paul Sarossy, o diretor de fotografia, apostam numa austeridade visual, com tons frios e sombras que elevam a introspecção da narrativa.
Arsinée Khanjian, esposa e colaboradora habitual de Egoyan, oferece uma performance contida e doída. Lisa tem muito a dizer, mas não sabe se expressar, fechando-se a um mundo de certezas irreais. Michael McManus vai pelo mesmo caminho, tendo um único e fundamental momento catártico.
“Speaking Parts” é um filme instigante e misterioso sobre protagonistas que ainda não encontraram sua própria voz.

