Holy Motors (2012)
Após “Pola X” (1999), Leos Carax ficou treze anos sem dirigir um longa-metragem. Em 2012, ele retorna ao Festival de Cannes com aquele que é, muito provavelmente, seu filme mais celebrado. Eu fico imaginando a reação dos críticos na sessão de abertura, diante de algo tão complexo e ambicioso. “Holy Motors” é, ao mesmo tempo, uma homenagem apaixonada à sétima arte, um alerta à falta de individualidade no mundo contemporâneo e uma crítica à sociedade do espetáculo.
Ao longo de um dia, acompanhamos Mr. Oscar, um ator que tem uma série de “tarefas” a cumprir por Paris. Ele sai de casa, entra na limusine e tira a maquiagem e a peruca. Os únicos momentos em que Oscar é ele mesmo são na limusine, quando está comendo, conversando com Élise, sua instrutora/motorista, ou se preparando para o próximo afazer. O cinema é a rua; tudo é encenação, tornando turva a noção de realidade. A cada novo personagem (uma senhora que pede esmola, um ser que vive no esgoto, um assassino de aluguel, um pai frustrado…), ficamos na dúvida sobre a veracidade daquilo que está acontecendo. Ao sair abruptamente do carro para matar um homem, Oscar também é morto; no entanto, basta Élise “acordá-lo” para que ele se levante. Quem é Oscar? Ele ainda existe? Suas tentativas de diálogos são uma forma de encontrar-se dentro de si. Mais: o homem no qual ele atira é uma versão dele mesmo, o que reforça a frustração por não se identificar mais, perdido entre tantas personas. Se a arte imita a vida, a arte tornou-se dispersa e pouco afetuosa. Onde está a equipe? A limusine ganha vida própria, dando tudo que o ator precisa, prendendo-o à solidão. O fato de as “esquetes” acontecerem na rua, sem qualquer tipo de aviso, reforça uma preocupação central de Carax: como saber se as pessoas estão sendo honestas ou interpretando um papel adequado àquela situação? Todos somos atores.
Oscar, um intérprete profissional, vive num mundo em que sua profissão é um ato constante. Cansado, ele pergunta se terá alguma tarefa na floresta. A cidade perdeu sua essência. Na abertura do filme, vemos um público moribundo num cinema. A grande tela parece ter perdido seu simbolismo. As pessoas anseiam pela artificialidade, por obras menos desafiadoras. Um homem, interpretado por Carax, acorda em seu quarto e abre uma porta que dá nesse cinema. Carax não é um cineasta para seres desinteressados; talvez esse seja o motivo pelo hiato entre “Pola X” e “Holy Motors”. Oscar é o prisioneiro de um mundo em que nada é real (nem mesmo a lareira que o aquece). Ser ator não é mais um ofício; é quem ele é.
Carax, em seu comentário sobre a arte e a sociedade moderna, também realiza uma homenagem ao cinema. O protagonista jamais repete um personagem, flertando com os mais diversos gêneros. De certa forma, não deixa de ser uma homenagem ao próprio Denis Lavant, colaborador habitual de Carax, conhecido por sua extrema versatilidade. Poucos usam o corpo como Lavant, o que é ressaltado na sequência em que Oscar vai a um estúdio de captura de movimentos e naquela em que dá vida a Merde, uma figura misteriosa que entra em bueiros e come plantas. Há espaço para o drama, para o suspense, para o melodrama, para o musical e para o grotesco. Nas variadas esquetes, Carax utiliza recursos distintos, adaptando sua linguagem. Em uma conversa entre pai e filha, ele foca basicamente em planos fechados, estabelecendo um forte intimismo. Na captura de movimentos, a câmera lenta salienta a mirabolância das acrobacias. Para focar em Merde, o diretor fecha o quadro num formato circular. Carax também explora algo fascinante, intrínseco ao cinema: sabemos que nada é real e, ainda assim, duvidamos e sentimos exatamente aquilo que o cineasta planejou. O próprio Oscar, mesmo tendo noção de que tudo ali é encenado, não deixa de se emocionar, por exemplo, na sequência musical, refletindo a posição do espectador. Em outro momento, uma trilha sonora que parece ser não diegética revela-se diegética.
Denis Lavant é um ator extraordinário. Com poucas falas na pele de Oscar, o ator consegue construir uma sensação de exaustão e vazio crescente. O protagonista não identifica mais o mundo ao redor nem sua função dentro dele. Lavant explora a corporalidade como poucos, indo do bizarro ao sublime em pouco tempo. “Holy Motors” é um dos grandes filmes do século.

