Pola X (1999)
“Pola X” é o filme mais obscuro da carreira de Leos Carax. O motivo é óbvio. Depois de “Boy Meets Girl”, “Mauvais Sang” e “Os Amantes da Pont-Neuf”, as pessoas esperavam algo na mesma linha. O amor continua sendo o mote narrativo, mas a crueza estética e a natureza polêmica da relação entre os personagens centrais parecem ter afastado espectadores mais sensíveis. É uma pena; afinal, “Pola X” talvez seja o trabalho mais acessível de Carax de um ponto de vista estrutural e dramático.
Pierre está prestes a se casar com Lucie. Ao lado de sua mãe, ele vive num castelo que o distancia do restante da civilização. A família veste roupas elegantes e brancas, com um ar de sofisticação aristocrática. O terreno é vastamente explorado por Carax, que enfatiza a natureza como um símbolo de pureza. Tudo é cristalino e impecável – o que pode ser mais chique do que tocar um piano de cauda num enorme salão? Pierre é um jovem escritor de algum prestígio, mas não parece convencido de que está vivendo da “forma correta”. Há algo em seu rosto, uma incerteza que não combina com o que está acontecendo na superfície de sua existência. Eis que ele se depara com Isabelle, uma mulher que o persegue e que afirma ser sua irmã. Ela fala a verdade? A névoa nos deixa em dúvida. Repentinamente, sua vida se vê preenchida de sentido e significado: Pierre não quer ser o príncipe do castelo; seu propósito é salvar Isabelle. Carax desenvolve uma tensão sexual crescente entre os dois, o que nos leva não só à polêmica, mas ao mote da narrativa: paixões destrutivas.
Diante da fragilidade e do medo sentidos por Isabelle, Pierre se torna agressivo e protetor, num ato de rebeldia contra a sociedade. “Sou outro Pierre agora. Graças a você”. Ele abandona o casamento, a mãe e a estabilidade para viver à deriva, em Paris. Das paisagens solares, vamos a um centro urbano decadente, frio e desolador. Perto de Isabelle, o protagonista é atencioso e doce; com os demais, mostra-se gradualmente impaciente. Isso afeta seu trabalho. A nova perspectiva de mundo dá início a um novo romance, muito mais denso e desafiador. “Você sonha em escrever um trabalho maduro, mas seu talento repousa sobre sua imaturidade”, diz sua editora. Pierre é um ser em ebulição, aprendendo a viver num universo cruel e a lidar com sentimentos que, antes, eram inócuos. Composta por Scott Walker, já em sua fase experimental e industrial, a trilha sonora dita os passos frenéticos e cambaleantes do protagonista.
À medida em que o amor cresce, a degradação dos espaços se torna maior. Os irmãos são obrigados a se mudar para um abrigo lúgubre, com portas enferrujadas, cores frias e tons de sépia. É lá que o amor é consumado, numa sequência explícita, honesta na maneira como retrata o amor carnal. Carax enxerga a tragédia, mas realça a beleza de ter alguém para si. Seu filme é sobre almas dependentes; pessoas que se amam de tal forma que a mínima desconfiança ou o menor distanciamento podem provocar atos e pensamentos terríveis. Carax não deixa de julgar aquilo: a sequência onírica, em que os dois fazem sexo num rio de sangue, é autoexplicativa. O inverno toma conta das paisagens; os cortes ganham um caráter abrupto, combinando com a trilha sonora dissonante; o livro de Pierre é prontamente recusado pela editora; a câmera adota um comportamento mais nervoso; e as incertezas sobre a trajetória de Isabelle aumentam. O rosto envelhecido, a barba desgrenhada, a bengala, os tropeços ao andar, a aparência abatida… Pierre, ao abraçar o amor, abraça o pacote completo – para Carax, isso não costuma terminar bem. Os protagonistas do cineasta, mesmo aqueles que morrem, não demonstram arrependimento: o amor é a única causa possível. E, claro, há um peso ainda maior aqui: os personagens carregam um pecado divino consigo. Sentado à mesa, Pierre escreve, mas não consegue fugir da sensação de farsa. O sofrimento silencioso é ressaltado pelo trabalho corporal do ator Guillaume Depardieu, que, após um início sereno, atravessa um arco visceral e de alta demanda física, assemelhando-se, no fim, a um mendigo lesionado e abatido.
Lucie é outra figura trágica, também movida por amor. Doente e solitária, ela recorre a Pierre e aceita ser uma companhia quieta no abrigo decadente. Carax não apenas apresenta seres dependentes; seu filme, visualmente, é como uma viagem às profundezas da dependência emocional e da tristeza. O vazio existencial do castelo ganha outra face; agora, existe um propósito, mas não há possibilidade de concretizá-lo ou de alcançar algum tipo de conforto. Em “Pola X”, o amor, mais do que nunca, é uma maldição.
Yekaterina Golubeva está igualmente fantástica. Isabelle é um poço de vulnerabilidade, uma jovem abandonada e deprimida. Sua falta de energia é, ao mesmo tempo, o que move e o que drena Pierre. Sem ela, não há sentido; com ela, o mundo é mais triste, frio e real.
Carax é um transgressor e “Pola X” é a sua joia mais subestimada.

