Minotauro
Nota IMDB:
★ 7,6 /10
Gênero:
Thriller psicológico, Drama
Ano:
2026
Direção:
Andrey Zvyagintsev
Roteirista:
Claude Chabrol, Simon Lyashenko, Andrey Zvyagintsev
Estrelas:
Dmitriy Mazurov, Iris Lebedeva, Boris Kudrin

Minotauro

Minotaur (2026)

O diretor russo Andrey Zvyagintsev gosta de narrar histórias sombrias com uma sobriedade muito particular. “Minotauro” é uma adaptação do filme “A Esposa Infiel”, de Claude Chabrol, que já havia tido um remake na década de 90, dirigido por Adrian Lyne e estrelado por Richard Gere. Por que “refilmar” uma obra que já foi refilmada? O primeiro ponto envolve as diferentes sensibilidades artísticas de cada um desses cineastas. O segundo (e principal) diz respeito justamente ao período e ao lugar em que cada versão se passa. Ao situar seu filme na Rússia, em 2022, logo após a invasão à Ucrânia, Zvyagintsev prova ter uma visão própria.

Gleb é o diretor de uma grande empresa. O contexto político ferve pelos corredores, com vídeos nos celulares e pedidos de demissão. Em uma reunião com o prefeito, os líderes de empresas importantes são informados de que terão que selecionar alguns funcionários para serem enviados à guerra. A foto de Putin na parede da sala ressalta que todos ali, até os que não concordam com o que está acontecendo, servem a um líder. Gleb, então, forma uma nova divisão de trabalho somente para contratar um número específico de homens. Na rápida conversa que o protagonista tem com os novos contratados, Zvyagintsev, famoso por sua rigidez formal, rompe com esse padrão, circulando com a câmera pela sala, observando o rosto de cada um daqueles homens. Eles acreditam que farão parte de uma grande empresa, não que estão próximos da morte. “Minotauro” é, essencialmente, um filme sobre propaganda, as máscaras que os seres mais poderosos vestem. Gleb pode até enganar seus funcionários, mas sabemos que ele selecionou pessoas para morrer, assumindo um papel de divindade. Nas ruas, os cartazes rasgam elogios ao exército e soam convidativos, mas sabemos que aquela é uma guerra inútil e egoísta. Gleb é, em alguma medida, um soldado de Putin, um espelho da Rússia atual, um homem que foi corrompido pelo sistema. 

Em casa, o protagonista passa a impressão de ser um pai atencioso; no entanto, quando seu filho pede ajuda com um garoto que o está importunando, Gleb nem titubeia: “agarre-o pelo cangote”. Eles vivem em uma cidade próxima a Moscou, numa bela casa, rodeada pela floresta. Zvyagintsev repete algumas vezes o mesmo enquadramento: do lado de fora, vemos a família sentada à mesa. É uma imagem sólida, mas que, assim como o vidro que cobre a casa, esconde fragilidades importantes. Galina parece ter nojo do marido. A cada beijo ou aproximação, uma reação de encolhimento. Na cama, não há qualquer tipo de conexão; cada um vira para o seu lado e briga por um pedaço do cobertor. Os únicos momentos em que Galina sorri e demonstra ânimo são aqueles em que está com o seu celular. Gleb começa a desconfiar de algo e contrata um detetive particular. Antes de entrar na investigação, é importante explicar as nuances daquele casamento. Em um jantar entre “amigos”, Galina é mantida numa baixa profundidade de campo, como um ser invisível que não se conecta com aquele meio. No diálogo entre os amigos, há risadas e camaradagem; na conversa das amigas, sentimos uma certa artificialidade, um código comportamental que é seguido nesse tipo de ocasião. Galina, ao longo dos anos, não estabeleceu uma vida própria, vivendo como uma serva do marido. Ela até demonstra insatisfação, mas nunca expressa suas reais angústias ou chega perto de pedir o divórcio – tudo é muito bem ensaiado, com toques claros de cinismo. Gleb já a traiu várias vezes e ficou por isso mesmo. Ao perceber que as coisas estão saindo do trilho, o protagonista tenta ser atencioso, mas não tem as ferramentas para atrair a esposa. O que resta? O que fazer sem que a imagem de pai de família seja ferida? Destruir esses momentos de felicidade de Galina, obrigando-a a voltar ao seio familiar em tempo integral. 

Como mencionei acima, Zvyagintsev trabalha com planos estáticos, numa encenação que dialoga com a frieza do país e que mantém um forte caráter observacional. Na única sequência em que vemos Galina com Anton, seu amante, o cineasta rompe novamente com esse padrão, circulando com a câmera pelo ambiente, transmitindo a sensação de liberdade e prazer. Ali, Galina assume um fervor, uma vontade genuína de estar viva. Eis que Gleb, na aguardada visita, após um lapso raivoso, mata Anton (isso não é spoiler, estamos falando de uma adaptação de uma obra de 1969). Zvyagintsev estende a sequência ao máximo, incorporando elementos de humor ácido pelo fato de Gleb ser extremamente desajeitado para se livrar das evidências do crime. Mais do que isso: Zvyagintsev retrata aquilo com sua habitual frieza, refletida nas ações meticulosas do protagonista. A polícia entra em ação, mas fica de mãos atadas: o que ela pode fazer contra alguém tão poderoso, relacionado às autoridades políticas? Galina, eventualmente, descobre o que aconteceu e a sua reação sintetiza o filme: silêncio e aceitação. O casamento também é um acordo político e, nessa hierarquia, Gleb ocupa o topo da cadeia. 

Dmitriy Mazurov oferece uma performance precisa, conseguindo tirar o protagonista da zona de caricatura. Em situações específicas, Mazurov reage com nervosismo ou demonstra algo que remete à empatia. Iris Lebedeva diz tudo sem abrir a boca. Seu trabalho corporal e suas expressões faciais servem a uma composição impecável. 

“Minotauro” é um filme que fica na mente do espectador. O labirinto gélido construído por Zvyagintsev é hipnotizante.

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