O Massacre da Serra Elétrica Parte 2
Nota IMDB:
★ 5,6 /10
Gênero:
Comédia de humor negro, Horror
Ano:
1986
Direção:
Tobe Hooper
Roteirista:
L.M. Kit Carson, Tobe Hooper
Estrelas:
Dennis Hopper, Caroline Williams, Jim Siedow

The Texas Chainsaw Massacre 2

O Massacre da Serra Elétrica 2 (1986)

Em 1974, Tobe Hooper revolucionou o cinema de horror, com “O Massacre da Serra Elétrica”, um dos grandes marcos da consolidação do slasher. Aquele é um dos filmes mais doentios, febris e viscerais de todos os tempos. Doze anos depois, Hooper, que já havia se tornado um autor reconhecido – “Poltergeist”, “Salem’s Lot” e “Lifeforce” -, decidiu retornar ao Texas rural que o colocou nos holofotes. Continuações desse tipo costumam ser a receita para o fracasso. Os cineastas, de modo geral, amparados pelo estúdio, repetem a fórmula do sucesso, perdendo o frescor inicial. Hooper foi na contramão, realizando um filme que ironiza o predecessor e que funciona num registro completamente diferente. 

“O Massacre da Serra Elétrica 2” tem momentos de gore e tensão, mas conta com toques “nada sutis” de humor. Na trama, Lefty, xerife local, é obcecado por Leatherface e, embora não seja levado a sério por seus colegas, inicia uma investigação particular que ganha corpo graças à “misteriosa” morte de dois jovens. Stretch, apresentadora do principal programa de rádio, por acaso, grava o som das serras elétricas e dos gritos dos rapazes. Os dois se unem para descobrir a verdade e acabar com a farra de Leatherface. No filme de 74, o antagonista era um ser cujo tamanho desproporcional, máscara de pele humana e irracionalidade perante seus atos brutais o tornavam perturbador. Outro elemento importante era sua família, destacada no jantar macabro. A década de 70 ficou para trás; aquela crueza não dialoga com o cinema oitentista. Leatherface e sua serra elétrica retornam, mas, dessa vez, ele tem consciência. Ao se aproximar de Stretch, ele sente que precisa salvá-la. Talvez por amor. Talvez por um impulso sexual. A questão é a subversão. No primeiro filme, Leatherface não pensaria duas vezes antes de esquartejar suas vítimas; aqui, seu visual continua a assombrar, mas Hooper insere uma humanidade inesperada e brinca com sua corporalidade grandiloquente.

Chop-top, irmão do antagonista, é apresentado como alguém fora de si, digno de arrepios; todavia, aos poucos, percebemos que se trata de uma figura risível em seu exagero. A sequência em que Hooper prova ter o seu filme sob controle é aquela em que a rádio é invadida. O vermelho ganha em potência; Stretch se afasta e Chop-top se aproxima, chegando a ser enquadrado por meio de um contra-plongée. Na sala em que se esconde, Stretch fica dividida entre o azul, que salienta seu medo e impotência, e o vermelho, cuja conotação é autoexplicativa. Esse é um exemplo concreto de uma encenação do medo, da tensão crescente. Hooper consegue sustentar a atmosfera do horror, ao mesmo tempo em que ri de sua própria criação. É como se ele dissesse: sabe aquela obra prima que eu fiz há mais de uma década? Aquilo acabou, não se sustenta nos tempos atuais. O naturalismo e os toques documentais dão lugar a um desfile quase caricatural. 

A família macabra talvez seja o ponto mais delicado de subversão. Eu entendo os detratores deste filme, mas não posso negar a coragem de Hooper e a eficiência de sua carpintaria cênica e tonal. O último ato se passa inteiramente na caverna da família. O trabalho de direção de arte é de um primor louvável. Repentinamente, saímos da cidade e parece que adentramos as profundezas do inferno. O lugar é dominado por fumaça, tons entre o laranja e o vermelho, sangue, tripas e cadáveres. O mais fascinante é a sensação de transição absoluta, de estarmos num território onde as normas são outras. Outro fator primordial para o equilíbrio da narrativa é a presença de Lefty, interpretado pelo insano Dennis Hopper. Lefty é tão amalucado quanto os membros da família macabra e está ali por vingança. A briga de serras elétricas, emulando duelos de espada, entre o xerife e Leatherface é um dos exemplos mais divertidos dessa comicidade. No desfecho, Hooper estabelece uma rima com o primeiro filme, terminando num momento catártico, de insanidade e luta por sobrevivência. 

Caroline Williams está ótima no arquétipo de moça corajosa, a famosa final girl – seus gritos são de uma intensidade impressionante. Dennis Hopper nasceu para fazer parte dessa franquia. Somente ele seria capaz de superar a loucura da família de Leatherface. Em cada cena, a sensação é de que ele está se divertindo imensamente. 

“O Massacre da Serra Elétrica 2” é um filme ousado e subestimado. Tobe Hooper faz falta.

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