“Young Adam” é um filme de poucas palavras, que encontra nas reações de seus personagens a sua verdadeira força.
Joe trabalha e mora em um barco junto com Les, Ella e o filho deles. O casal não se comunica tanto, a mulher sente falta de coisas básicas que seu marido não pode lhe entregar, simplesmente por ser limitado e ignorante.
Em nenhum momento Joe e Ella fazem declarações ou falam sobre seus sentimentos, apenas tiram suas roupas e transam. Ouvimos alguns gemidos, o barulho dos pés e depois os vemos sentados em direções opostas, como se nada tivesse acontecido. O sexo aqui não parte de um desejo ou de algo belo, é uma necessidade puramente selvagem e animalesca. Ella não tinha nada com Les e Joe estava acostumado a vagar pelos cantos, seduzir e fugir no “momento ideal”.
O protagonista gosta de chamar a atenção das mulheres, seu olhar é bem direto e suas palavras expressam apenas o necessário para que o ato seja rapidamente consumado. É o que ele faz com Cathie, que acaba se apaixonando. Percebam que, ao notar uma intimidade maior, o protagonista muda de expressão, deixando o charme de lado para demonstrar seriedade e frieza.
Quando Cathie diz que está grávida, Joe responde: “quer que eu faça algo sobre isso?”, ressaltando o seu egoísmo e total falta de sensibilidade.
Em determinado momento, descobrimos que o filme é dividido entre passado e presente, explicando o porquê de certas reações de Joe. Cathie era sua antiga namorada, Ella representava o presente. Tanto faz, as mulheres são peças descartáveis dentro de uma vida errante e vazia.
Les descobre a traição e vai embora, dando espaço para os “pombinhos” viverem sua lua de mel. Ella, que, a princípio, era uma figura melancólica e rígida, passa a se soltar mais, o que é evidenciado no seu figurino – os trapos dão espaço a roupas coloridas e ela chega até a passar batom.
Entretanto, assim como faz com todas as mulheres, Joe freia qualquer ímpeto com sua introspecção e frieza. Ele nunca disse nada que levasse Ella a entender que os dois tinham algo significativo, contudo, o simples fato de manterem relações sexuais é o bastante para a personagem acreditar que está diante de seu futuro marido, o que não quer dizer que ela esteja apaixonada por ele. Ao acolher a viúva de seu cunhado, Ella praticamente entrega o ouro de bandeja para Joe. Sua existência se baseia em conseguir bicos, transar, evitar laços afetivos e seguir em frente quando isso não é possível. “Temos assuntos a tratar”, diz Gwen, antes de fazer sexo com o protagonista num beco.
A cena mais simbólica do filme talvez seja a que Joe “literalmente” come Cathie, jogando mostarda, ketchup e ovo nela. É como uma refeição: saborosa e necessária, mas esquecível.
O roteiro vai além e desenvolve uma trama com toques de suspense, que o faz carregar uma tremenda culpa, ainda mais sabendo que um homem inocente irá pagar pelo o que fez. Joe não quer ver ninguém enforcado injustamente e até faz um esforço para salvá-lo, porém nunca se entrega, o que é perfeitamente compreensível, não só por sua personalidade, é uma condição inerente aos humanos e apelar para um heroísmo barato teria sido um erro.
“Young Adam” é um filme com conceitos bem trabalhados e a visão do diretor sobre sexo dentro de seu universo é um de seus grandes méritos.
Como mencionei acima, palavras e declarações são deixadas de lado, dando espaço para olhares sedentos e toques indiscretos, que, ao invés de carinho e paixão, ressaltam a conotação animalesca e impessoal daquelas relações.
David Mackenzie cria uma lógica interessante ao colocar objetos entre os personagens. Há algo que impede o espectador de assistir o sexo entre Joe e Cathie, que vê apenas lama e escuta gemidos; por outro lado, antes de se beijarem, o protagonista e Ella precisam passar por uma viga, que simboliza a barreira impeditiva de qualquer relação mais profunda. Seus close ups e planos-detalhe reforçam a necessidade que os personagens têm de transar, sempre invasivos e penetrantes. Ele consegue criar núcleos dentro de um pequeno ambiente, escondendo dos demais personagens o que Joe e Ella estão pensando. Sua abordagem nas cenas mais quentes é bastante intensa, fugindo de idealizações românticas, expondo o lado animalesco dentro do ser humano. Quando deixamos de ver o desenvolvimento de um relacionamento e assistimos apenas o sexo, tendemos a nos afastar, achar aquilo gratuito, quase pornográfico e é exatamente nesse ponto que Mackenzie quer chegar. Sua movimentação de câmera trata Les como um pobre coitado, que é humilhado em sua própria casa e a mise en scéne faz questão de salientar a distância entre Joe e Ella.
A montagem, além de enganar o espectador, moldando o tempo à sua preferência, pontua o quão vazio é o sexo entre os personagens, a partir de cortes abruptos e rimas interessantes. Não diria que a transição de um beijo para uma máquina barulhenta despejando objetos é a mais poética, porém é sutil o suficiente para dar significado àquele momento. Os flashbacks são bem inseridos, ajudam na contextualização e a plantar sementes na mente de Joe, que se sente angustiado por uma atitude do passado.
A fotografia aposta em tons acinzentados para refletir a melancolia em torno do filme e azulados, reforçando a frieza envolvendo as relações sexuais e Joe, principalmente. A escuridão está ligada à culpa, por exemplo, quando Ella trai Les pela primeira vez e quando Joe se envolve de vez com a “subtrama”. Nesse sentido, a presença de fumaça e névoa é natural, conversando com a atmosfera e o tom da obra.
A direção de arte merece elogios por conceber o barco da forma mais precária e simples possível. Não há nenhuma glamourização, tudo é muito rústico e decadente. O seu pequeno tamanho ressalta a indiferença que Ella e Joe sentem por Les, que pode pegá-los a qualquer instante. Quando não são no barco, as cenas de sexo são em lugares escondidos, sujos e monotônicos.
O vermelho, cor normalmente utilizada em filmes com essa temática, é praticamente ignorado, afinal, não há desejo nem sentimento em “Young Adam”, apenas a necessidade primitiva de penetrar alguém.
O objeto jogado por Joe no mar no desfecho era o único símbolo de afeto que mantinha. Uma forma interessante de especular o futuro do protagonista, que caminha para trás – e a profundidade de campo se torna cada vez menor.
A trilha sonora de David Byrne é espetacular, conciliando sedução e suspense com muita delicadeza.
Ella tem um arco “extenso” e Tilda Swinton é cuidadosa em sua caracterização. A atriz se entrega de corpo e alma nas sequências mais quentes, esbanja insatisfação e melancolia no início, entra no jogo do protagonista e acaba se “afeiçoando” por ele. Por que será? Diferentemente de Joe, Ella precisa de algum falso ponto de estabilidade.
Swinton atinge extremos através de expressões e gestos perfeitamente calculados e foge de qualquer tipo de sensualização, aparecendo quase sempre curvada e despenteada, também abusando de hábitos “porcos”.
Ewan McGregor está perfeito como Joe. Suas reações e seus olhares são sutis a ponto de não precisarmos de qualquer tipo de exposição para entender o que se passa em sua mente. O vazio está em seu olhar, na sua introspecção, na forma como termina uma relação sexual e esbanja indiferença, indicando que nem prazer sequer teve. O momento em que Joe sorri rapidamente ao perceber que não tem chance de ser considerado culpado pelo o que fez e o quase instantâneo retorno a um semblante sério, é sensacional, a prova do quão talentoso e versátil McGregor é.
“Young Adam” é uma obra fria e atmosférica, cujos personagens “abominam” sentimentos. Um filmaço subestimado e pouquíssimo comentado.

