Skip to main content

“Watership Down”, 1978, é um negócio sério. Tão sério, que eu me questiono quem teria interesse em assisti-lo. O filme é muito violento para crianças e os adultos, em sua maioria, tendem a menosprezar animações. Esta adaptação do livro homônimo é uma verdadeira maravilha. Na trama, Fiver tem uma visão apocalíptica sobre sua colônia e, com a ajuda de Hazel, seu irmão, reúne um grupo de coelhos para encontrar um novo lar. 

A jornada é repleta de tensão, servindo de teste para a resiliência dos ágeis e espertos animais. O contraste entre o sereno e o selvagem é amplamente abordado. À noite, a neblina, o arame farpado e a escuridão conferem um aspecto sombrio à natureza, capaz de te devorar em segundos. Como mencionei acima, o filme, embora seja sobre um grupo de coelhos, contém sequências violentas e traumáticas. A expressão desalentadora de Fiver ao testemunhar a morte de Violet é de cortar o coração – isso sem falar no sangue derramado. Durante o dia, o verde do campo e os espaços abertos são centros de tranquilidade. Em determinado momento, o diretor Martin Rosen destaca o voo solene de uma ave, capturando a paz em seu estado mais puro. 

Não tarda para descobrirmos que os principais vilões são os seres humanos, cuja ação no meio ambiente é absurda. “Os homens sempre nos odiaram”, afirma um dos personagens. A visão de Fiver, que se concretiza, é obra de uma espécie manchada pela crueldade. Em uma das etapas para chegar à colina (o novo lar), os coelhos tentam libertar algumas fêmeas de uma fazenda, afinal, precisam procriar. Quando os homens notam o movimento, Rosen os enquadra a partir de ângulos baixos e utiliza contraluz para ressaltar o caráter vilanesco e impessoal. 

A relação dos coelhos com Kahaar, a simpática e cômica ave dublada por Zero Mostel, é o contraponto perfeito para a brutalidade, funcionando como comentário atual sobre a animosidade que rege o cotidiano humano, seja lá em qual esfera de discordância. O roteiro contempla a empatia e é direto em sua crítica a regimes totalitários, representados, aqui, na colônia de Efrafa, controlada pelo General Woundwort. A animação, além de lindíssima em seus traços naturalistas, merece elogios pela caracterização cuidadosa dos personagens – cada animal é dotado de particularidades. Woundwort, por exemplo, é consideravelmente maior e mais assustador que os demais. Em Efrafa, as coelhas são servas dos oficiais da lei, que usam da força para combater possíveis inimigos e traidores. Nossos amigos, na busca por fêmeas, desafiam a colônia tirânica. 

Essa é, também, uma história sobre irmãos que, em suas diferenças, sempre se acolhem e seguem adiante. Hazel é inteligente e objetivo; sua liderança é fundamental para que o grupo não se apavore nem enfrente crises. Fiver é menor e emocionalmente frágil; no entanto, sem suas visões, nada seria possível. A sequência em que toca “Bright Eyes”, de Art Garfunkel, é de uma beleza imensurável, sintetizando o primor imaginativo e estético das grandes animações. O protagonismo fica dividido entre Hazel e Bigwig, que abandona a força policial para acompanhá-los. Enquanto o primeiro atua como uma liderança cerebral e apaziguadora, o segundo se impõe fisicamente, ganhando relevância quando eles precisam invadir Efrafa. 

Outro tema relevante do filme é a relação dos seres com o fim. Nesse sentido, a última cena, precedida por um clímax de alta tensão, é um caloroso abraço. O prólogo estabelece a mitologia local, com ênfase para Frith, o criador de todos, e o coelho negro, responsável por levá-los deste mundo ao outro. Dependendo da perspectiva, o coelho negro, por personificar a morte, pode ser encarado como um vilão; todavia, no desfecho, somos apresentados a uma outra visão, muito mais poética e reconfortante. John Hurt, dono de uma voz inconfundível, de ecos acolhedores e sinistros, é o principal nome do elenco. 

“Watership Down” é uma obra prima.

O que você achou deste conteúdo?

Média da classificação / 5. Número de votos:

Nenhum voto até agora. Seja o primeiro a avaliar!