Por ter dirigido os clássicos “O Show de Truman” e “A Sociedade dos Poetas Mortos”, algumas pessoas se esquecem que Peter Weir é um cineasta australiano, que, invariavelmente, leva sua origem às grandes telas. “The Last Wave” é um belo exemplo do quão australiano Weir pode ser. Um filme em que o misticismo da cultura aborígene se sobrepõe em relação às normas do meio urbano.
O calor domina o deserto, onde as crianças brincam. Não há nuvens, mas a tempestade se aproxima. De repente, a chuva se inicia, transformando-se em granizo. Ao longo da narrativa, Weir apresenta planos-detalhe que focam em rastros d’água, como se nos informasse de algo que está prestes a acontecer. Seria a água um símbolo do mal? A predileção da fotografia por tons azulados corrobora com tal escolha, fomentando um clima de inquietude. David Burton, um advogado respeitado, é o encarregado para defender quatro aborígenes que, supostamente, mataram um semelhante. David não costuma aceitar este tipo de caso; todavia, a história o intriga a ponto de tentar desvendar o mistério. Enquanto tenta preparar uma defesa, o protagonista começa a ser atormentado por sonhos estranhos, que envolvem enchentes, temporais e elementos aborígenes. Quando, em uma das reuniões com seus clientes, ele se depara com Chris Lee, o homem que apareceu em seu sonho, a linha entre sonho e realidade fica embaçada.
David sabe que aquele não foi um assassinato “normal”, mas os aborígenes se limitam a dizer que Billy, a vítima, viu e pegou coisas que não devia. Weir não demora a construir uma atmosfera onírica, combinando imagens premonitórias com um design de som que destaca o vento e vozes arrepiantes. Pelas lentes de Weir, a natureza e o espaço ganham contornos intimidadores. Ele usa uma premissa de tribunal para ressuscitar uma cultura que foi engolida por costumes ocidentais. O “Tempo do Sonho”, ao qual David se vê imerso, é um conceito aborígene que fala sobre uma realidade espiritual paralela à nossa, na qual sonhos são mensagens proféticas. A constante conexão dos pesadelos com a presença de símbolos aborígenes e de Chris faz de David o “Mulkurul”, alguém que tem acesso ao “Tempo dos Sonhos” e faz uma ponte entre as diferentes realidades, sendo capaz de prever o apocalipse. Claro, não estamos falando de algo que é entendido de imediato – Weir não tem essa pretensão. Em um momento corriqueiro, vemos David e Chris lado a lado. As roupas denunciam as diferentes crenças e realidades; para que haja um nível apropriado de diálogo, aquelas barreiras terão que cair. A cada minuto, cada vez mais atormentado pelas visões catastróficas, David parece aceitar seu posto.
Ao dizer que o “Tempo dos Sonhos” é mais real do que a própria realidade, o roteiro afirma que o ocidente não tem todas as respostas e que, na sua arrogância, ignora a cultura ancestral, que, por anos, norteava aquele país. É justamente a arrogância que nos incapacita de entender totalmente o que está acontecendo; por isso tudo é tão assustador e místico. Mesmo David, que abandona suas convicções e, parcialmente, se afasta da família, não desvenda o quebra cabeça por completo. Talvez o “Tempo dos Sonhos” seja a realidade e nós, seres ocidentais, vivemos numa cúpula de mentiras. Weir nos relembra de que não temos controle sobre coisa alguma – somos mínimos diante de algo gigantesco. O prazer de se sentir intimidado e tenso pelo desconhecido é um dos grandes baratos do cinema. Talvez isso afaste aqueles prefiram narrativas padrões, mas não há como negar a efetividade do trabalho de Weir.
Richard Chamberlain oferece uma performance riquíssima, iniciando como o típico pai de família e se entregando, gradualmente, aos mistérios que assolam sua mente. “The Last Wave” é, até o seu último plano, uma obra que indaga e mistifica.



