Em 2001, Takashi Miike lançou seis filmes (isso mesmo). Entre eles, o icônico “Ichi the Killer” e “The Happiness of the Katakuris”, um exemplo perfeito do quão habilidoso Miike é para estabelecer tons específicos. Seus projetos caminham numa espiral de peculiaridades; a impressão é que ela faz escolhas pensando naquilo que é mais difícil e ousado de se alcançar.
A história de uma família que é dona de uma pensão na qual os raros hóspedes morrem misteriosamente já é intrigante, mas Miike vai além e decide fazer um musical com elementos de humor mórbido. O filme, ao mesmo tempo em que é uma homenagem apaixonada ao gênero, brinca com a artificialidade que o rege. Eu suponho que a ideia tenha sido algo do tipo: e se cantássemos e dançássemos em meio ao desespero? O resultado é uma obra divertidíssima e que encanta o espectador com a sua carta de amor às relações familiares.
Miike, a fim de driblar o clima sombrio, cria atalhos para as situações pesadas. Ele abre a narrativa com um voice over infantil, o que é fundamental para fomentar uma atmosfera acolhedora. Quando o primeiro hóspede morre, uma fumaça azulada toma conta do quarto; no entanto, assim que os personagens entram no quarto, eles começam a dançar, tentando resolver o problema cantando. Dessa forma, o suicídio fica em segundo plano, com a surpresa pela coreografia do caos subindo para a primeira camada. Miike queria fazer um filme sobre o elo que une uma família, ainda que nada dê certo, sem negar a autoralidade que o tornou relevante. Em sequências mais violentas ou que representam um risco para alguém, o cineasta transita para a animação em stop motion, abraçando a irrealidade, um lugar em que avalanches não são mortais e penhascos são menores do que parecem. Em outro momento, uma luta ganha contornos cartunescos, graças ao design de som, que insere barulhos de flatulência e saltos acrobáticos.
Ao longo de sua carreira, Miike sempre flertou com a farsa e o artificial. No gênero musical, a carta branca fica maior ainda e ele se diverte com as possibilidades. As sequências de cantoria têm coreografias simples; todavia, por vezes, o diretor incorpora elementos que dialogam com o caráter sonhador dos personagens – destaque para o karaokê em que o casal convida o espectador para cantar junto. Miike gosta de trabalhar com contrastes e aqui não é diferente. A pensão tem um aspecto residencial e o espaço que a cerca é dominado pela natureza, o que combina com a felicidade que move os Katakuris, uma família que não perde a oportunidade de fazer algo junto; por outro lado, a pensão se transforma num antro do azar humano e o terreno, um verdadeiro cemitério. Miike utiliza artifícios para dar uma cara sombria ao lugar, mas, como mencionei acima, o tom confortável nunca escapa de suas mãos.
O que mais surpreende é o fato das músicas, em sua maioria, serem realmente boas – pelo menos, num nível narrativo. Não há encheção de linguiça; todas as canções entram com um propósito muito bem definido. Os atores apresentam uma química notável, alinhados com a proposta do diretor. Tetsuro Tamba, que interpreta o carismático avô, e Kiyoshiro Imawano, que dá vida ao trambiqueiro que finge ser um agente secreto britânico, são os principais nomes do elenco. “The Happiness of the Katakuris” é mais uma demonstração de coragem de um diretor cuja carreira pode ser definida como uma intensa demonstração de coragem.



