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Steven Soderbergh venceu a Palma de Ouro por “sexo, mentiras e videotape”, seu primeiro trabalho, e, no início da década de 2000, levou a estatueta de melhor diretor por “Traffic”. Ele atingiu, precocemente, um patamar altíssimo e, em vez de se acomodar, decidiu se tornar um dos cineastas mais inquietos da contemporaneidade. Soderbergh gosta de experimentar, mesclando entre filmes de alta escala e projetos menores, nos quais ele brinca com as possibilidades do formato audiovisual – “High Flying Bird” e “Unsane”, por exemplo, foram gravados com um IPhone.

Aqueles que, em 2009, decidiram assistir a “The Girlfriend Experience” por terem gostado do divertidíssimo “The Informant!” (lançado no mesmo ano), provavelmente, tomaram um susto. Assim como em “Bubble”, Soderbergh opta por um elenco de “não atores”, o que conversa com a proposta realista e evasiva da obra. Ao longo de alguns dias, seguimos a rotina de Chelsea, uma acompanhante de luxo. O filme tem uma estrutura fragmentada, que impede que entremos em completa sintonia com aquele universo; e isso não é uma crítica, apenas uma constatação de que Soderbergh não está interessado em uma trama, mas na construção de um retrato quase documental. O posicionamento da câmera estabelece uma distância calculada entre espectador e personagens – como se estivéssemos presenciando algo secreto, o que também tem o efeito de reforçar o distanciamento emocional de Chelsea perante seus clientes. A predileção por planos estáticos garante uma austeridade estética e confere à narrativa um ar observacional, típico de documentários.

No início, vemos a protagonista com um sujeito com quem, após ir ao cinema e jantar, passa a noite. “Ele é meio chato e não consigo aguentá-lo por muito tempo”. Chelsea proporciona experiências completas para homens inseguros e solitários. Ela é uma espécie de psiquiatra sexual; uma acompanhante que está lá para escutar lamentos e se mostrar prestativa. Em determinado momento, um personagem questiona suas reais ambições; afinal, aquele é um meio baseado estritamente na atração física. O que Chelsea seria se não fosse bonita? Ela não sabe responder; está tão imersa neste universo de valores plastificados, onde o cotidiano é ditado pela performance e pelo desejo alheio, que parece ter se esquecido de seu verdadeiro nome. Por um lado, é digno e louvável o fato dela, ao lado do namorado, um personal trainer com tendências empreendedoras, viver numa bela residência e ter estabelecido algum conforto; por outro, a sensação é de que, a cada encontro, Chelsea se afasta mais de traços humanos, transitando somente pelo dinheiro, evitando qualquer emoção complexa. Sua voz denota vazio; seu rosto se assemelha ao de um zumbi que foi cuidadosamente maquiado; e, ao se vestir, ela assume o papel de boneca, renegando a mulher que existe dentro de si.

O roteiro vai além, mostrando as nuances do trabalho de uma acompanhante, que precisa cuidar de sua imagem e aumentar o acesso nos sites. Seres que prometem catapultar sua carreira pedem por favores sexuais – cadê o luxo? O mundo das acompanhantes é cercado por uma competição silenciosa, notada em olhares odiosos. Não temos acesso aos sentimentos e aos anseios de Chelsea, mas sabemos que, ao escutar o nome de uma concorrente badalada, seu sangue começa a ferver. Quando ela abre uma exceção para um cliente simpático, temos um vislumbre de uma mulher que quer provar para si que ainda é capaz de se envolver com alguém. Chris, o namorado, é compreensivo e empático; todavia, muitas vezes, se depara com um muro de egoísmo e frieza. Sua posição é tão delicada, que eu sou incapaz de fazer qualquer julgamento acerca de suas ações.

No centro, Sasha Grey, que é uma atriz pornográfica, oferece uma performance contida, quase impenetrável, que se encaixa na proposta de Soderbergh. “The Girlfriend Experience” é um experimento bem sucedido de um artista movido pela curiosidade.

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