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“The Accidental Tourist” foi um sucesso de crítica e recebeu múltiplas indicações ao Oscar. O tempo passou e, embora seja lembrado com carinho por seus entusiastas, o filme não é tão citado quanto deveria. A tendência, quando os nomes de Lawrence Kasdan e William Hurt são citados, é lembrar de “Body Heat”, que também é excepcional. Eu diria que essa é uma sessão dupla perfeita, já que se tratam de filmes opostos.

No clássico de 1981, o calor se sobrepunha em cada enquadramento e intenção; em “The Accidental Tourist”, os tons são frios e o humor é seco. A trama gira em torno de Macon Leary, um guia de viagem que não gosta de viajar e que, recentemente, perdeu seu filho, morto a tiros. Sarah, sua esposa, também enfrenta a dor do luto e, na ânsia por consolo e apoio, se depara com um parceiro inerte. A fim de respirar novos ares, ela opta pelo divórcio, escancarando a solidão do protagonista, que parece desapaixonado pela ideia de viver. Macon se acomodou na melancolia, sendo incapaz de demonstrar frustração. A partir de alguns flashbacks, percebemos que, apesar da apatia, seu coração ainda pulsa. A estranha conexão que mantém com Edward, seu cachorro, é um exemplo de seu esforço para manter o filho vivo em sua memória. O jeito contido e peculiar é uma marca da família Leary. Os irmãos de Macon, que decidem passar um tempo em sua casa, são figuras, no mínimo, singulares. A cada interação entre eles, eu ficava mais surpreso com o estranho conservadorismo que os rege. 

Eis que, antes de uma de suas enfadonhas viagens de trabalho, Macon conhece Muriel, uma cuidadora de cães que impressiona por seu otimismo inabalável. Igualmente solitária, ela é capaz de falar por horas caso não seja interrompida e não tem medo de ir direto ao ponto. Um dos acertos do roteiro é justamente o contraste de personalidades, responsável por diálogos que combinam embaraço, humor e sensibilidade. Enquanto Macon tem uma dificuldade homérica para dizer sim ou não, Muriel o convida para jantar e ir ao cinema. Nesse sentido, os trabalhos de direção de arte e figurino são essenciais. Enquanto Macon opta pela sobriedade cinza, Muriel veste roupas alegres, que parecem ter sido adquiridas num brechó. O mesmo vale para sua casa, cuja bagunça e predileção por cores variadas refletem sua excitação constante. A princípio, ela pode até soar como mais uma personagem “estranha”, porém, aos poucos, notamos camadas que a conferem complexidade. Mais importante: passamos a ter convicção de que Muriel faz muito bem ao protagonista. “The Accidental Tourist” entende que, para sair de zonas nebulosas, o ser humano precisa de alguém que segure sua mão. Após Macon finalmente se abrir, depois de Muriel insistir bastante, os dois se abraçam. Pela primeira vez, a sensação é de que tudo está bem. Macon se liberta das amarras que o impediam de ir adiante; Muriel tem alguém para cuidar e dividir suas aflições. 

Kasdan desenvolve a narrativa no tempo de seu protagonista; ou seja, nada é imediato. Temos tempo para conhecê-lo a fundo e entender o funcionamento daquelas pessoas. Esse é o principal motivo pela enorme empatia que sentimos por Macon – se o diretor não respeita sua criação, o valor se esvai. O roteiro é extremamente elegante ao evitar respostas fáceis, mais uma vez, respeitando a individualidade de seus personagens. Quando Sarah, imersa na solidão, pede por uma segunda chance, não sentimos que Kasdan está indo atrás de viradas simples. Pelo contrário, ele acerta o centro do dilema. Essa não é uma comédia romântica na qual o protagonista vai carregar a amada como uma princesa. Estamos falando de um drama maduro sobre luto, reconciliação e afeto. Ao se recolocar no mapa da vivência social, Macon precisa reconsiderar laços e pensar em diferentes possibilidades. Ele chega a uma conclusão que sintetiza as intenções do filme. “Talvez o mais importante seja quem você é quando está com alguém”. Quem extrai a sua melhor versão? Outra pergunta, que pode soar desalentadora, é: será que existe uma Muriel para todo Macon?

William Hurt, Lawrence Kasdan e Kathleen Turner, que colaboraram em “Body Heat”, apresentam uma intensa versatilidade. Hurt impressiona pela facilidade que tem para interpretar homens vulneráveis e complexos. Ele traz à tela uma grandeza inexistente nos tempos atuais. Geena Davis, que venceu o Oscar, é o contraponto perfeito.

“The Accidental Tourist” é uma jóia que merece ser revisitada.

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