“Tea and Sympathy” é um filme que, por incrível que pareça, continua atual e relevante. Vincente Minnelli foi um dos cineastas mais ousados de Hollywood. Ele abordava temas sensíveis como poucos e encenava tudo com um perfeccionismo digno de um mestre – seus enquadramentos e movimentos de câmera são mais reveladores do que os próprios diálogos.
No início, somos apresentados a uma reunião de ex-alunos de um colégio interno. Rapidamente, um longo flashback toma conta da narrativa, apresentando as nuances daquele universo e a experiência traumática de Tom. Em determinado momento, na praia, vemos um grupo de jovens com o treinador. Minnelli nos leva a uma percepção: não existe individualidade ali. Os garotos são, desde cedo, ensinados a adotar uma certa pose, calcada na afloração da masculinidade. Tom, do outro lado da praia, senta-se ao lado de mulheres casadas e as ajuda a costurar uma camisa. É o suficiente para que ele seja apelidado de “irmãzinha”. As equipes esportivas são chefiadas por adultos que estimulam esse comportamento, acreditando que homens só podem ser considerados como tais, seguindo determinada cartilha.
Quando Herb, pai de Tom, visita o colégio, temos a esperança de que algo seja dito e que o protagonista possa ser acolhido. Mas não, o que vemos é o inverso. Herb estabelece uma distância calculada, tentando induzir o filho a seguir os passos da manada. Sua expressão física denota receio de ter uma conversa profunda. “Você fica conhecido pelos companheiros com quem anda” é o tipo de conselho que somente um sujeito muito limitado daria. No restaurante, Herb vê graça na importunação dos jovens a uma garçonete, ressaltando o beco no qual o protagonista se encontra. Se a padronização é uma exigência, então podemos decretar o fim da espécie humana. Tom deve ter fotos de mulheres nuas no quarto, não quadros de arte; escutar música e ler poesia não são passatempos masculinos o bastante; seu cabelo deve ser tão curto quanto o de um militar; e falar sobre flores é um crime passível de penas severas. Tom é o prisioneiro de uma cadeia aberta, regida por figuras que usam equipes esportivas como centros de fomentação do mal.
Diferentemente de seus colegas, Tom tem gostos e objetivos muito bem definidos. Sua sensibilidade parte da capacidade de apreciar a subjetividade humana. Esse é o motivo pela opressão que sofre; no fundo, ela diz algo sobre a insegurança de seres que não dão um passo sem antes conferir se estão dentro das normas estipuladas. A única que apoia Tom é Laura, esposa de Bill, diretor da escola. A fim de potencializar a reação dos personagens, Minnelli repete a mesma estratégia visual. Bill e Herb ficam ao fundo, interagindo como camaradas selvagens, falando sobre os “problemas” do protagonista, enquanto, em primeiro plano, observamos o rosto apreensivo de Laura. Sua única tarefa, designada pelo marido, é servir o chá e ser simpática, o que salienta a obsessão masculina por controlar as funções e o comportamento de ambos os gêneros. Laura não é simpática com Tom por pena, mas por perceber nele características raras em um homem. Bill a trata com frieza, evitando questões delicadas, assim como Herb faz com o filho – notem o padrão. Em casa, Laura tem a mesma relevância de um belo móvel; Bill dá mais valor aos seus atletas. A solidão é o elo que a une a Tom.
A relação é guiada a partir de diálogos que, aos poucos, ganham em intimidade e, principalmente, pelo impecável trabalho de direção de arte. Na sala, onde os dois passam tempo juntos, a predominância é por objetos de cores intensas, como, por exemplo, a cadeira vermelha e a poltrona amarela. O figurino de Laura segue a mesma lógica, refletindo o efeito que ela tem sobre o rapaz – destaque para laranja e verde. O jardim também é um ambiente seguro, marcado por flores e pela natureza. Na famosa sequência na floresta, uma intensa névoa cobre o espaço, protegendo-os do mundo ao redor. No fim, o que eles têm é a chance de experimentar a pureza e a beleza que se esvaíram em um universo tão rígido. No presente, Bill é um homem perdido e melancólico; já Tom, destacado por Minnelli através de um contra-plongée, não tem dúvida de quem realmente é.
Deborah Kerr e John Kerr (não há qualquer parentesco entre os dois) oferecem performances carregadas de emoções em seus rostos e vozes, indo ao encontro da sofisticação melodramática de Minnelli. “Tea and Sympathy” é uma obra prima que toca em vespeiros que continuam a atormentar a sociedade.



