“Ruby Sparks” é um filme feito sob medida para pessoas que idealizam demais e têm dificuldade em respeitar as individualidades alheias. É sobre um jovem tão talentoso e solitário, que é capaz de escrever sobre a garota de seus sonhos e materializá-la. O que era perfeito se transforma em pesadelo quando a idealização ganha contornos demasiadamente reais.
Calvin Weir-Fields é tido como um gênio, o novo J.D. Sallinger e sabe que seus casos amorosos ocorreram em decorrência desse posto e não por um interesse genuíno em sua pessoa. O protagonista é sensível e delicado a ponto de admitir para o irmão que seu último sonho era lindo e envolvia apenas uma garota com quem ele conversava. Harry enxerga na falta de sexo um motivo para preocupação; Calvin quer apenas alguém que o encante, que lhe diga coisas interessantes e que o apoie. A pressão de seu agente e do mundo literário e uma tarefa de seu psiquiatra o levam a Ruby, uma jovem que habita os seus sonhos e o tira do mórbido bloqueio criativo. O romantismo de Calvin fica nítido na forma como ele a caracteriza, com detalhes íntimos e momentos que somente pessoas atentas aos pequenos prazeres da vida dariam ênfase.
O protagonista não se considera um gênio, nem gosta do meio em que habita, quer apenas escrever sobre o que o fascina e encontrar alguém que o preencha.
Como disse, “Ruby Sparks” é um prato cheio para os solitários, os que dizem que a pessoa ideal não existe e que evitam qualquer tipo de movimento mais arriscado. Calvin não vai a lugar algum, seu amor sai de sua mente, de sua folha de papel.
Há um princípio de humor quando Ruby surge, afinal, o protagonista toma um susto e acredita estar alucinando. Dano trabalha perfeitamente os estágios iniciais até aceitar que sua criação estava, de fato, ao seu lado.
Eu tenho textos parecidos com os de Calvin Weir-Fields, sei que eles não se tornarão realidade e é, no mínimo, reconfortante ver uma idealização saindo do papel dessa forma. O início é divertido, estimulante e incrivelmente perfeito.
O problema é que sonhos não se sustentam no mundo real. Ruby ganha contrastes, fica mais distante e exige de Calvin o que qualquer ser humano exigiria. Relacionamentos funcionam assim, no entanto, o protagonista sabe que existe algo a mais nesse; algo mágico e especial. Como crítico, devo admitir a minha total identificação com os dilemas que Calvin enfrenta. Ele ama Ruby, a criou, a quer por perto e que tudo funcione como nos seus textos. Contudo, diferentemente da imaginação, a realidade não permite rótulos e caracterizações definitivas. Cada vez mais imersa a um mundo sociável, Ruby passa a ter emoções complexas, contraditórias e humanas, que colocam Calvin contra a parede e terminam com a sua lua de mel.
Em vez de encarar as fases e se tornar um homem compreensivo e maduro, o protagonista opta por uma série de remendos, que transformam sua musa em uma espécie de fantoche e o elevam ao patamar de Deus. Ele é narcisista, mas suas ações partem de um medo igualmente humano: o de não saber lidar com pessoas e se deparar com uma solidão agonizante.
No fim, Calvin não estava se relacionando com alguém, apenas consigo.
A trajetória é divertida, triste e serve de aprendizado para o protagonista prestar mais a atenção nas individualidades e não naquilo que ele projeta. A cena em que Calvin a liberta é poderosa e deprimente, e o desfecho é, de certa forma, otimista e justo.
Escrever é uma forma de autoconhecimento e de expor sentimentos guardados. Talvez o protagonista tenha ido longe demais. Talvez eu esteja sendo hipócrita, provavelmente faria a mesma coisa em sua posição.
A montagem dita o ritmo da obra, sendo dinâmica e enérgica nos momentos mais contagiantes. No clímax, os cortes são expressivos e potencializam a carga emocional da cena. Há algumas rimas elegantes e o timing é excelente, como, por exemplo, em uma sequência na qual Calvin se sente solitário e escreve que Ruby precisa desesperadamente dele.
A fotografia trabalha com tonalidades contrastantes, indo de cores vibrantes no ápice da idealização para tons escuros no desenrolar do relacionamento. A casa perde seu brilho com o tempo. A luz forte no sonho é um artifício efetivo, e o verde “adoecido” nas sequências em que Calvin dorme sozinho expõe o peso daquele sentimento.
A trilha sonora é fascinante, conseguindo ser doce, melancólica e romântica. É um complemento perfeito para esse tipo de história.
Jonathan Dayton e Valerie Faris (“Little Miss Sunshine”) reafirmam o seu talento neste projeto, que é o ponto mais alto de suas carreiras. Os planos em que Calvin está de costas são recorrentes e reforçam o seu distanciamento perante o universo que habita; os close ups enquanto ele escreve denotam, simultaneamente, o seu narcisismo e, principalmente, o seu amor por sua criação. Alguns enquadramentos são belíssimos e o clímax é um verdadeiro tour de force.
Zoe Kazan se entrega totalmente à sua personagem, passando por todas as fases, esbanjando carisma, meiguice e talento. São pequenas coisas que a tornam verdadeiramente humana e a composição da atriz é riquíssima.
Paul Dano oferece uma performance alegre e doída. Seu personagem é egoísta, talentoso, solitário e não sabe muito bem como lidar com personalidades distintas. Ele nos faz rir, passa a impressão de ser um gênio excessivamente precoce e encanta pela genuinidade ao admitir que ainda é inseguro para entrar de cabeça em um relacionamento. Seu arco é rico e permite que seu fim seja recompensador sem soar forçado ou brega. Calvin Weir-Fields é como qualquer pessoa que idealiza, sonha com situações simples e não está pronto para compreender a complexidade humana.
Vale ressaltar que os atores são casados na vida real, o que aumenta a química.
“Ruby Sparks” é uma obra prima que conversa diretamente comigo. Um filme sensível, honesto e muitíssimo bem escrito.

