“O Desprezo” é uma homenagem apaixonante ao fazer cinematográfico – sobre isso não restam dúvidas -, no entanto, também é um retrato surpreendentemente melancólico de um homem que vê no cinema a sua falência, o fim de sua razão e de seu relacionamento. Godard deixa claro: arte e realidade se misturam de uma forma necessária e desesperadora.
Paul precisa reescrever o roteiro da adaptação do clássico “Odisséia”. Ele não queria ter que se colocar no lugar de Ulisses, mas sua fala é muito nítida, seu texto se baseia em sua vida, envolvendo relacionamento, incompreensão e dor. O artista segue dessa forma, transformando o cinema, simultaneamente, em seu único amigo e pior inimigo. Camille responde a tudo rispidamente, não se alonga, nem dá justificativas para sua insatisfação. Brigitte Bardot está belíssima. Acredito que a sua nudez, apenas velada, tenha sido uma sacada de Godard para ressaltar o desprezo que a protagonista sente pelo marido. Tanto que na cena em que o nu seria mais explícito, quando Camille está a nadar no oceano, a cada braçada sua, ela se afasta mais e mais de Paul. Barreiras físicas e invisíveis são vistas constantemente. Godard utiliza portas, paredes, o oceano e barcos para separá-los.
A longa sequência no apartamento é a alma do filme. Camille é, ao mesmo tempo, incisiva e distante, enquanto ele é grosseiro e inquieto. O que tornou um casamento tão amoroso em um convívio tortuoso e mecânico? Paul quer saber, Camille tem a resposta, mas nada diz, optando por um tratamento cada vez mais frio e indiferente. O homem é tão dominante que não enxerga o seu tamanho – os pequenos surtos de Paul são exemplos nítidos. Ela diz que o cinema o transformou em alguém disperso e cruel e acredito que não tenha sido nada fácil para Godard escrever esse diálogo, pois, no fim das contas, essa é uma carta, uma declaração de um gênio que admite que a sua fonte motora o transformou em um sujeito “pior”.
-Por que não quer mais fazer amor?
-Ok, façamos, mas seja rápido.
“Tudo era espontâneo, louco, rápido e encantado. O casamento era uma intocável nuvem de inconsciência e enorme cumplicidade.”
Onde tudo se perdeu? Foi no descaso de Paul ao deixar sua esposa com o produtor americano? Acredito que não, é algo de tempos atrás, que, pelo desgaste, se tornou insustentável.
Por que então não se separam? Medo?
A câmera que olha em direção ao espectador e o quadro de um espetáculo no apartamento do casal são sutilezas geniais. O cineasta leva às massas o que está em sua casa, em sua mente. Suas dúvidas, defeitos e culpas. Ele expõe sua companheira “por um bem maior” e tenta seguir em frente, aprender e, quem sabe, melhorar.
Godard utiliza pouquíssimos cortes nessa grande sequência e torna o momento ainda mais íntimo. Alguns lugares específicos ressaltam a nossa posição de voyeur, sendo o principal, o ponto de vista da porta. Não era para estarmos assistindo àquela discussão. Godard sabe como nos tirar e colocar na zona de conforto. Sua direção é tão fluida, que nem parece que é aquele jovem destemido responsável por “Acossado” que está por trás das câmeras. Quando Camille admite que sente apenas desprezo por Paul, as coisas ficam ainda mais evidentes. A vida é um grande cinema, um teatro de máscaras, no qual as pessoas sofrem em silêncio e machucam sem perceber.
A luz, muitas vezes, se apaga em cima de Camille, salientando sua falta de espaço e sua melancolia.
“A Odisseia é a história de um homem cuja mulher não o quer mais.”
O grande defeito de Paul é ser cauteloso demais. Ele tem oportunidades de mostrar que a ama, no entanto, mantém um descaso incoerente com sua dor.
“O Desprezo” é um retrato honesto e dolorido sobre um relacionamento que terminou, mas sua faceta cinéfila é igualmente fascinante. Os pôsteres ao redor da pequena cidade italiana são toques muito elegantes, que provam que Godard era um verdadeiro apaixonado pela sétima arte. Entre os diretores “citados” estão: Howard Hawks, Alfred Hitchcock, Roberto Rossellini, Vittorio De Sica e o próprio Godard.
O produtor americano, interpretado por Jack Palance, é a personificação de tudo que transforma o cinema em um produto descartável – o outro desprezo. “Quando ouço a palavra cultura, puxo o talão de cheques.” Ele é exagerado, insensível, caricato, é contra complexidades e seduz todas as mulheres que encontra. “No mundo moderno temos que aceitar o que os outros querem”, diz Paul, após se irritar com as exigências do produtor.
Em contrapartida, o diretor do filme, vivido pelo lendário Fritz Lang, fala com um ar quase professoral e trata a sua obra como algo belo, difícil e poético.
O fazer cinematográfico é homenageado diversas vezes. Não resta dúvida de que aquele era o sentido da vida de Godard, contudo, ele assume que a sua arte o deixou mais frio e calculista.
A fotografia opta por uma iluminação fortíssima, que combina com as decorações, os objetos à disposição e com a presença de Brigitte Bardot, além, claro, de criar um contraste interessante com o convívio frio dos protagonistas.
As paisagens italianas são belíssimas e Godard tira proveito delas para explorar poeticamente a distância entre Paul e Camille.
O diretor coloca, invariavelmente, Bardot em primeiro plano, realçando sua dor, sua verdade e sua beleza. Ela tem algo a dizer, mas, de certa forma, “O Desprezo” também é uma longa apreciação do corpo feminino, detalhadamente reverenciado, desde o contorno das suas curvas até o relevo das suas mais do que perfeitas “imperfeições”.
A atuação de Bardot é genuína em todos os níveis. A insatisfação de Camille é crescente, a atriz sabe quando deve ser direta e quando deve optar por um inacessível descaso. Mesmo sendo um filme no qual Godard trabalha mais as movimentações, dando maior liberdade aos atores, ele não deixa de utilizar seus famosos close ups, enfatizando a hipnotizante expressão do rosto de Bardot. O desprezo de Camille por seu parceiro chega a ser palpável.
Já Michel Piccoli, oferece uma performance calcada na incredulidade e na frieza. É uma caracterização complexa e o ator demonstra a habitual competência. Ele quer, desesperadamente, saber o que levou seu casamento ao fim, mas reage de forma casual quando o produtor convida sua mulher para passear.
A trilha sonora é parte fundamental para o funcionamento da obra como um todo. Sua melodia é arrebatadora.
O figurino de Camille é extremamente provocador, tomado por cores fortes, que salientam, simultaneamente, o desejo da personagem de ter espaço em sua vida e o fogo natural da atriz.
O vermelho está por toda a parte, nos sofás, nas roupas, no carro e nas paredes, tendo conotações variadas – dor, pecado, desejo sexual e violência.
Outro ponto a ser destacado é a forma como o diretor usa as diferentes idiomas falados no filme – alemão, francês, italiano e inglês – para enfatizar a dificuldade que os personagens têm de se comunicar.
“O Desprezo” é uma obra prima, talvez a maior dentro da genial carreira de Godard.

