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A natureza é belíssima, o casal recém-casado está apaixonado e a casa poderia ser a do filme “Um Dia a Casa Cai”, protagonizado por Tom Hanks. O otimismo impera, espantando qualquer revolta ou descontentamento. Estamos falando de uma comédia romântica? Não, “Nightborn” é mais uma escolha da Berlinale para discutir a maternidade pela ótica do horror (na última edição, tivemos Mother’s Baby, que tem crítica no site).

A diretora Hanna Bergholm opta pelo exagero, incorporando elementos cômicos à narrativa. O nascimento do filho, momento que impõe uma mudança drástica na vida do casal, é retratado de forma cartunesca, com o bebê saindo como uma bomba, despejando sangue na cara de Jon, o pai. A montagem, com seu timing cômico, e o potente design de som funcionam como forças contrastantes que mantêm o tom ideal. A paz inicial é subvertida pela chegada do novo membro da família, cujo rosto demora a ser mostrado. Quando Bergholm finalmente o apresenta, vemos uma imagem sombreada, que desperta calafrios – isso sem falar em suas costas peludas, unhas enormes e no choro de proporção atômica. O exagero na caracterização do bebê é fundamental para estabelecer a ideia de que a paternidade cega o adulto, que, hipnotizado por sua prole, é incapaz de enxergar o óbvio. Adivinhem quem será a responsável por notar tais anomalias e agir contra a corrente? Saga, a mãe, claro.

A essa altura, a natureza e a casa afastada deixaram de ser idílicas, assumindo um papel de intensificadores de tensão. Jon é uma figura igualmente simpática e aborrecida. Seu ar compreensivo e espírito positivo me fizeram ter vontade de atravessar a tela e socá-lo. Por vezes, perguntam se Saga, diante de tanto estresse, não quer ir a um terapeuta. Eu sou a favor da terapia, mas, neste caso, o mais apropriado seria um exorcista. Assim como em “Mother’s Baby”, os coadjuvantes querem levar a protagonista a acreditar que está surtando – a diferença é que, aqui, sabemos que os cegos são eles. O arco de Saga é brilhantemente construído, indo da felicidade à frustração; da fúria à aceitação.

Ao perceber que o bebê não reage bem a carinho e a outras normalidades, Saga decide entrar em seu jogo, alimentando-o com aquilo que o agrada e educando-o com gritos de proporção similar – muito do humor reside neste embate de reações. Para Bergholm, a maternidade é um processo metamórfico que obriga a mãe a deixar de ser quem ela era antes. A partir de agora, Saga será Mãe – nada mais. Não à toa, os pais dos recém-casados não têm nome, sendo creditados por suas funções “divinas”. Quando a protagonista sai com algumas amigas, numa tentativa de relaxar, a impressão é de que ela está se preparando para uma intensa competição. O pai, menos envolvido, pois não carrega o mesmo fardo, vive no seu mundo de ilusões e se afasta da mãe, o que é ressaltado por um plano no qual um móvel fica entre os dois e pela gelidez que toma conta do ambiente.

Há elementos nítidos de folk horror, como, por exemplo, o fato do bebê ser uma espécie de “filho da natureza diabólica”. Ele é procriado na floresta, um lugar que, desde o início, parece ser amaldiçoado. Os toques de horror físico também estão lá, conferindo sabores ainda mais condimentados a uma narrativa que sai do lugar comum. A amamentação e a alergia são especialmente desconfortáveis. Saidi Haarla está ótima no papel principal, dando vida a emoções intensas e às aflições maternas. Rupert Grint (sim, Ron Weasley, de “Harry Potter”) é perfeito para interpretar sujeitos bondosos e irritantes.

Em seu desfecho, “Nightborn” nos garante que as mães fazem o impossível por seus filhos. O teor cínico e pesado do argumento talvez afaste alguns espectadores, mas este não deixa de ser um excelente filme.

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