“Murderball” inicia apresentando a dificuldade que um de seus “personagens” tem para tirar a calça e vestir o short. Em seguida, os relatos ressaltam o caráter ofensivo de algumas “gentilezas”. Se eles foram ao supermercado, é porque têm capacidade de colocar as compras no carro.
Eles reconhecem a tragédia do passado, mas olham para frente, rejeitando o rótulo de “pobres coitados”. O pior sentimento possível é o de pena; se alguém sente pena de você, comece a repensar sua vida. Eu acabei me empolgando na introdução e esqueci de mencionar que “Murderball” é um documentário sobre atletas de rugby em cadeira de rodas.
A grande maioria fraturou o pescoço e, dependendo do nível da vértebra, os movimentos são menores. Os cineastas Henry Alan Rubin e Dana Adam Shapiro investem numa crueza que evita qualquer tipo de dramatização – as entrevistas e as interações são registradas da forma mais genuína possível. Podem ficar tranquilos, estes rapazes estão se saindo muitíssimo bem. A cadeira de rodas e as limitações físicas não impediram que eles construíssem famílias e que mantivessem a libido acesa. Existem aulas de reeducação das práticas sexuais e as mulheres, nos bares e nas festas, não deixam de olhar para os “coitadinhos”. Qualquer tipo de sucesso, antes de qualquer preparo, advém de um estado de espírito elevado; de uma confiança que deveria ser natural.
No início, é como se eles voltassem ao estado fetal – tudo é difícil e emocionalmente complexo. Os atletas paralímpicos são verdadeiras fortalezas físicas que desafiam os limites cotidianos a fim de reconhecimento e, claro, de medalhas. Mark Zupan, o jovem que surge no início com dificuldades para tirar a calça, é intimidador, forte e talentoso. Sua namorada, que era estagiária num necrotério, o conheceu em um funeral – este filme é perfeito para evitarmos preconceitos, enxergando a situação pelo que ela é, não pelo que imaginamos que seja.
A figura mais fascinante do documentário é Joe Bishop, um atleta que, nos seus tempos áureos, colecionou prêmios individuais, mas que, ao envelhecer, deixou de ser uma prioridade para os Estados Unidos. Em um gesto de revolta, que salienta o seu espírito competitivo, Joe decidiu treinar a seleção canadense. O filho de Joe é um prodígio escolar, tanto em notas quanto em comportamento; todavia, ele não deixa de ser rigoroso com o garoto, que o idolatra. Em uma ocasião especial, sua esposa pergunta se ele não exagera com o filho. Joe foi educado por um homem cinco vezes mais rígido, cujos métodos “educacionais” envolviam punições físicas. Joe admite que seu jeito paternal veio de algum lugar e que precisa exigir o máximo do filho. Joe é um lutador obstinado; um ser que ultrapassou inúmeros obstáculos e que acredita numa educação específica. Ele não se limita a um estereótipo, o que é comprovado na cena em que faz um considerável esforço para chegar na apresentação musical do filho.
O grande mérito dos cineastas é cultivar uma tensão crescente entre as equipes do Canadá e dos Estados Unidos. As partidas são retratadas como batalhas gladiadoras, nas quais as cadeiras que se assemelham a escudos atingem o adversário com um impacto impressionante. A intensidade dos cortes e a trilha sonora pesada fomentam uma atmosfera “punk”, realçada pelas provocações e trocas de xingamentos. Para quem não conhece o esporte, o documentário também funciona como um “filme esportivo”, repleto de tensão; afinal, não sabemos quem vencerá a partida final. A construção narrativa, iniciando com duas partidas apertadíssimas e terminando com a semifinal paralímpica, em Atenas, confere um aspecto ainda mais épico aos jogos.
O espectador, a essa altura, tem motivos para torcer para qualquer um dos times. No Grand finale, os cineastas mudam a abordagem, apostando numa trilha sublime – é como se eles parassem o tempo para observar a magnitude do espetáculo. O desfecho faz jus à “realidade” – a vida segue; esses atletas sempre se superam.
“Murderball” (nome original do rugby em cadeira de rodas) é um documentário corajoso, honesto e potente em sua estrutura.