Lançado em 1993, “King of the Hill” foi um fracasso de bilheteria e um sucesso de crítica. Este é, sem dúvida, um dos melhores trabalhos da carreira de Steven Soderbergh; uma verdadeira aula de manutenção de tom, mesmo com um pano de fundo contrastante.
O filme se passa durante a Grande Depressão, período da maior crise financeira na história dos Estados Unidos. Aaron é o tipo do garoto que sempre “dá um jeito”. Ele é desajeitado, as chances não estão a seu favor e a quantidade de adversidades que o cercam impressiona. Soderbergh capta algo raro na atualidade; uma pureza que se alia à força de vontade para que a realidade sombria ganhe contornos encantadores. Logo no início, Sullivan, irmão do protagonista, é mandado para a casa do tio, dando início a um ciclo de desapego. Aaron vive com os pais num hotel decadente, onde os hóspedes estão, quase todos, prestes a serem despejados. A mãe, com quem ele passa mais tempo, é uma figura adoecida e não tarda a ir para um sanatório. O pai é um incansável vendedor que nada vende. Quando sobram apenas os dois, Aaron prepara uma verdadeira iguaria para o jantar: sopa de ketchup com água, que é elogiadíssima pelo pai. São pessoas que lutam para sobreviver, batendo em portas para vender velas que não acendem e criando canários, na esperança de que algum saiba cantar.
Aaron mente sobre a profissão do pai, dizendo que ele é um aviador do governo e, depois, que é um arqueólogo. O protagonista não tem vergonha de sua família, mas não quer ser visto como o pobre coitado da escola. Ao ser pego na mentira, Aaron foge, evitando confrontos e maiores constrangimentos. Ele sabe quando precisa dar um passo para trás, retornando para o universo que concebeu, no qual a Grande Depressão não é tão grande assim. Em determinado momento, Soderbergh usa o Split Diopter para que tenhamos noção de que Aaron está escutando as humilhações proferidas por um colega de sala – um artifício expressivo, que, bem empregado, revela sutileza deste tipo.
O pai finalmente consegue um emprego, só que em outras cidades e, sem opção, precisa aceitá-lo. Aaron fica sozinho, tendo que resolver dilemas financeiros e testemunhar uma indiferença cada vez maior das grandes empresas e do Estado em relação aos mais necessitados. Do outro lado da rua, as pessoas se abrigam, formando favelas. Mr. Mungo, um de seus vizinhos, que anda sempre com uma bengala de pele de rinoceronte e que costuma estar acompanhado de uma prostituta, comete suicídio, num ato que prova que todos estão sujeitos a serem engolidos pela crise. É importante pontuar tais acontecimentos para que fique nítida a dimensão dos problemas enfrentados pelo protagonista. São situações de cunho trágico, que ajudam a criar uma casca que preserva a pureza que o mantém de cabeça erguida. Aaron conta com a ajuda de Lester, outro vizinho, um trambiqueiro simpático que oferece conselhos e sempre tem uma carta na manga. Lester consegue carros, gasolina e ternos – é uma espécie de herói para o protagonista. Aaron está na fase de começar a se interessar por garotas. Em seu primeiro encontro com Ella, que também vive no hotel, é curioso notar o nível de preparação dela e o nervosismo dele. A trilha sonora evoca uma atmosfera doce e inocente, dialogando com os trabalhos de fotografia e direção de arte, cuja predileção por um universo de cores fortes não poderia ser mais acertada. Soderbergh utiliza ângulos holandeses justamente para distorcer um pouco aquela realidade, ressaltando que se trata da perspectiva de uma criança. O roteiro atinge o mérito de terminar numa nota bonita, sem qualquer exagero, sustentando o pano de fundo desalentador.
Jesse Bradford demonstra uma maturidade enorme para dar vida ao protagonista, controlando muito bem a resiliência e a ingenuidade. Seu rosto é um ímã de emoções poderosas. Do elenco de apoio, o grande destaque é Adrien Brody, cujo personagem serve de inspiração para o protagonista. “King of the Hill” é uma jóia que merece ser revisitada.



