René Clément gosta de filmar belas paisagens. Logo no início de “Joy House”, há uma perseguição no mar da Riviera francesa, em meio a rochedos. Assim como “Purple Noon”, este filme é protagonizado por Alain Delon, que, novamente, dá vida a um jovem sedutor e inteligente que adora brincar com o perigo.
Diferentemente de Tom Ripley, que apresentava um grau de psicopatia, Marc é apenas um garoto folgado, quase ingênuo. Ele foge de capangas, contratados pelo marido da mulher com quem teve um caso. Ao chegar numa igreja, Barbara e Melinda, sua empregada, decidem acolhê-lo. As roupas pretas e a trilha sonora nos indicam que há algo estranho no ar.
A casa parece um castelo, com calabouços, entradas secretas e olhos mágicos. Clement suscita dúvidas e foca em olhares dúbios. O que aquelas mulheres querem com o protagonista? Por que temos a impressão de que Marc não foi contratado somente para ser motorista? Quem observa as conversas? Melinda é a personagem chave, transitando entre os dois lados da casa. Ela conhece os planos e os segredos da patroa, mas, aos poucos, se apaixona por Marc. Seu jeito doce pode, em segundos, converte-se em algo sinistro. Barbara diz ser uma viúva; todavia, esconde Vincent, o amante responsável pela morte do marido, no sótão. Juntos, os dois esperam roubar o passaporte de um pobre coitado, matá-lo e sair do país. Estamos falando de um jogo interessante, estabelecido por pessoas com objetivos nítidos e que vivem num lugar propício a um bom thriller. Clément, por sua vez, não está tão interessado em sair da superfície, limitando-se a seguir um roteiro de boas reviravoltas e a se apoiar no talento de seu elenco. E, diga-se de passagem: que elenco! Conhecendo a essência do material base (um livro), o cineasta concebe uma atmosfera sensual, de toques Noir, enfatizando a sedução que move os personagens. Não é todo dia que podemos observar Alain Delon, Jane Fonda e Lola Albright encarando uns aos outros com a voracidade de quem deseja algo. A tensão sexual entre Barbara e Marc existe pela questão hierárquica e por ambos saberem que as segundas intenções rondam pelo ar. O protagonista tem noção de que está sendo usado e, para ficar em pé de igualdade com sua oponente, usa Melinda, que, entregue aos encantos do motorista, não sabe exatamente de qual lado ficar.
Clément nos introduz a um jogo no qual a carne fala mais alto e amantes e alvos podem facilmente inverter de posição. O amor se confunde com a loucura. O ímpeto de prejudicar aquele que não se pode ter é o mesmo que nos faz estender a mão. Melinda é a mais inocente do grupo e é a que se envolve com o maior turbilhão emocional. O desfecho é irônico e sagaz, não trágico, pois não nos importamos o bastante com os personagens – isso não é uma crítica, apenas uma observação sobre o tom escolhido pelo diretor. No clímax, Clément explora a arquitetura claustrofóbica do “castelo” para gerar tensão. Há algumas boas sequências de perseguição e, em seus piores momentos, “Joy House” é, pelo menos, bonito de se olhar. Delon está em sua zona de conforto. Fonda, no início de carreira, é quem surge como o principal talento, incrementando algum tipo de dualidade e complexidade à narrativa. “Joy House” não é espetacular, mas não deixa de ser um bom entretenimento.



