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“Ichi the Killer” é o trabalho de um diretor que foge das convenções e abraça as diversas possibilidades da linguagem cinematográfica. A premissa é simples; envolve gangues da Yakuza que rivalizam por poder e que não medem esforços para impor seu domínio. Kakihara, membro dos Anjos, está atrás de seu patrão, que sumiu com uma considerável quantia de dinheiro. Ao descobrir que ele foi morto por Ichi, um assassino misterioso, sua busca passa a ser por vingança.

Faz todo sentido que este filme seja uma adaptação de um Mangá. Takashi Miike mergulha o espectador num surto sangrento de tons contrastantes; é como uma visita ao inferno, só que, em vez do diabo, temos esses personagens. “Ichi the Killer” consegue ser repulsivo e doentio, ao mesmo tempo em que transpõe a estética saborosa do material base à grande tela. Há inúmeras sequências de matança e, em todas, Miike adota uma estilização extrema. Vemos tripas, litros de sangue, gargantas arrebentadas, mãos devoradas, agulhas que atravessam rostos e ganchos que sustentam uma pessoa inteira somente pela pele – se você é sensível a algum dos itens citados, fuja. O gore é tanto, que, em alguns momentos, a encenação assume um viés mais cartunesco, que atrai risos nervosos. Ao focar nas reações dos colegas de Kakihara, que também se espantam com seus métodos sádicos, Miike alivia o tom e dialoga com o espectador.

As ruas são sombrias, quase acinzentadas, ideais para que uma nova lei seja estabelecida; enquanto, nos ambientes internos, a predominância é por tons amarelados e esverdeados que conferem um aspecto febril àquele universo. A direção de arte também é fundamental para a idealização de tal atmosfera: no escritório dos Anjos, um canto é vermelho e o outro, cinza – cores que reforçam, respectivamente, os caminhos brutais percorridos pelos personagens e a frieza que os direciona. Miike combina a estilização sangrenta com imagens distorcidas, abrindo a narrativa de forma feroz e frenética. Um aspecto que pode incomodar algumas pessoas, mas que serve ao caos proposto por Miike, é a estrutura um tanto fragmentada, concebida por uma montagem que, por vezes, preza pela descontinuidade entre os planos. Levando em conta a minha introdução, a trama de “Ichi the Killer” soa como um veículo para algo maior; no entanto, eu diria que é justamente a rica caracterização da dupla principal que eleva o material.

Kakihara é um autêntico masoquista. A abertura de sua boca foi dilatada até a bochecha e seu rosto é coberto por cicatrizes. Ele encapsula as qualidades do filme, sendo aversivo e cool sem esforço. Ao torturar um inimigo, Kakihara se diverte e alonga a situação como se estivesse tendo orgasmos. Seu sorriso é um sintoma do mal que se apossou daquele lugar, uma espécie de submundo em que seres humanos são massinhas modeláveis e brinquedos de borracha. Kakihara tem um prazer ainda maior quando é a vítima, aceitando somente golpes destrutivos e apaixonados – esse é o principal motivo de sua obsessão pelo assassino que dá nome ao título. Por outro lado, sua adoração pelo patrão é ressaltada pelo figurino roxo que, unido com a camisa vermelha, sintetiza a personalidade de Kakihara. Tadanobu Asano oferece uma performance envolvente, moldada por uma aura cool, caricata e irônica, ideal para ser o contraponto de seu oponente.

“O Ichi trata de tudo” e “Como é esse Ichi?” são frases que fomentam a construção de um mito. O assassino é um jovem atormentado por mentiras. Ichi diz ter sido perturbado na infância e que sua missão é limpar as ruas de malfeitores. Na verdade, ele é usado por Jijii, um sujeito misterioso que, reconhecendo as fragilidades de Ichi, implantou memórias falsas através de hipnose. Jijii é quem alimenta o fascínio do espectador pela selvageria, manipulando os personagens com sua retórica maliciosa. A expressão de Ichi denota uma luta interna; a repulsa à violência é combatida pela necessidade de extravasar o ódio. Ele tem gatilhos específicos, indo de um rapaz simpático ou de uma criança chorosa a um maníaco em segundos – são essas contradições que o tornam sinistro. A trilha sonora e a montagem são imprescindíveis para adentrarmos as profundezas de sua mente. Seu figurino é um show à parte, não apenas pelas botas com lâminas, mas por remeter à figura de um robô programado para matar. Nao Ômori incorpora tais características com perfeição – o frio na espinha é tão forte quanto a empatia que sentimos por Ichi, um jovem que não se reconhece e não age por si.

“Ichi the Killer” é um deleite para nós, seres humanos que, como Michael Haneke comprovou em “Funny Games”, amam uma violência gratuita, ainda mais se for conduzida por um cineasta do naipe de Takashi Miike.

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