As ruas vazias e escuras escondem a verdade. O assassino, envolto em sombras que marcam suas digitais nas paredes, sai sem que seja avistado. Em “I Confess”, sabemos quem cometeu o crime. Hitchcock está interessado em entender a relação do homem com a fé. Até quando é válido manter o silêncio de uma confissão? Qual código moral o padre deve seguir: de Deus ou da sociedade? E, se por algum motivo, ele se torne o principal suspeito? Ainda vale a pena “acobertar” um sujeito covarde e desleal?
Otto Keller, um imigrante alemão que trabalha na igreja, assassinou Villette, um advogado influente. O motivo? Dinheiro. Por que o Padre Logan é encarado como um suspeito? Larrue, inspetor encarregado do caso, acredita que ele e Ruth, esposa de um francês rico, escondem algo cabuloso. Em determinado momento, o protagonista é descrito como solitário. De um ponto de vista objetivo, talvez; no entanto, o roteiro deixa claro que, por trás do ar suave, os padres vivem acompanhados de segredos e histórias. A situação só chega aos seus contornos dramáticos, porque Logan se recusa a esclarecer que, antes de assumir a batina, foi apaixonado e teve um caso com Ruth, que já estava comprometida – algo que ele não sabia. Seu tormento existe “graças” a sua capacidade de preservar os códigos éticos católicos e de demonstrar compaixão por aqueles que ama. Neste sentido, o roteiro não poderia ser mais pessimista; afinal, Keller abusa da pureza do padre para fugir da punição, provocando-o com covardias. Por outro lado, o filme não diminui o lado humano do protagonista, que, por vezes, se vê tomado por dúvidas e temores. Na cena da confissão, as microexpressões em seu rosto ressaltam uma série de incertezas. A informação está sendo remoída, mas ele não pode julgá-la. Seria humanamente possível conviver com um assassino? O padre, ao assinar um acordo divino, ganha uma consciência que transcende o entendimento da maioria? Embora tente transmitir paz, sabemos que Logan está sofrendo.
Larrue, por mais implacável que seja, age na legalidade; e sejamos honestos, todas as pistas o levam ao padre. Este é um caso em que o verdadeiro juiz não está entre nós – pelo menos, não fisicamente. Hitchcock, com sua genialidade formal, eleva o material. O uso conjunto de contra-plongées e ângulos holandeses indica que as coisas estão viradas do avesso e que a soberania está equivocada. O melhor exemplo desta articulação ocorre na sequência de julgamento, em que Keller, numa posição de inocência, conta sua versão e é enquadrado de tal maneira. Quando Logan tem a chance de revelar a verdade, a câmera se afasta, emulando o distanciamento do homem que não cai na tentação de se mostrar virtuoso. Na sala, onde depõem, Logan e Ruth parecem cercados por figuras que ficam ao fundo, o que é potencializado pelo fato de Larrue circular pelo ambiente, numa aula de como estabelecer uma atmosfera opressiva. Keller, colado no cangote do protagonista, é visto por Hitchcock como um “diabinho” que não cansa de falar.
Antes de se confessar, Keller aparece na igreja, imerso na completa escuridão. Quem aparece, com uma vela, para “iluminá-lo”? Adivinhem. Quando decide caminhar, Logan observa a vitrine de uma loja. As roupas civis lhe permitiriam acabar com o infortúnio – esse é o nível de sutileza empregado pelo cineasta. Os símbolos religiosos estão lá, muito bem pontuados. Ainda na caminhada, Hitchcock elabora um dos enquadramentos mais brilhantes de sua carreira: em primeiro plano, vemos a estátua de Jesus carregando a enorme cruz, rodeado por romanos e, ao fundo, Logan. O fardo da trajetória católica, de não poder se defender das injustas acusações está ali. No tribunal, a imagem da crucificação nos guia. Sabemos que o protagonista não falará nada e que o júri, por incrível que pareça, o considerará inocente. Como? Simples, o símbolo aparece ao fundo, enchendo o quadro de significados.
Montgomery Clift era um dos grandes. Aqui, ele expressa uma enormidade com muito pouco, interpretando o padre com empatia, sinceridade e afeto. “I Confess” é a prova de que até as obras consideradas menores na filmografia de Hitchcock são maravilhosas.



