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“Gigi” foi um dos últimos respiros do musical hollywoodiano clássico. Em 1959, o filme varreu o Oscar, levando nove estatuetas para casa. O benefício da retrospectiva não foi tão generoso com “Gigi”, que, nos últimos anos, foi alçada ao posto de obra supervalorizada, cujos temas, na contemporaneidade, soam ultrapassados.

A verdade é que Minnelli tem, sim, projetos muito mais interessantes em sua carreira. Eu diria, inclusive, que “Gigi” não é nem o seu melhor filme lançado em 1958 – este seria “Some Came Running”, estrelado por Frank Sinatra e Shirley MacLaine.

Mas, afinal, estamos falando de uma tragédia absoluta? Não, pelo contrário. As sequências musicais e as próprias canções são esquecíveis, servindo, muitas vezes, apenas para inchar a narrativa. A trama é intrigante, mas o roteiro carece de um acabamento melhor para a protagonista, que, no fim, fica como uma jovem sem personalidade – é como se não tivéssemos a oportunidade de conhecê-la. O filme se passa no início do século 20, em Paris, onde as pessoas prezam por um comportamento mecanizado. Os jornais dão urgência a notícias fúteis, envolvendo separações e novos casais da alta classe. Na entrada dos restaurantes, o silêncio escancara a obsessão por tomar conta da vida alheia.

Quando Gaston é traído pela namorada, Honoré fala em “patriotismo masculino” e é enfático ao dizer que muita gente boa já passou por isso, como, por exemplo, Napoleão Bonaparte e Victor Hugo. Gaston vira notícia e, por ocupar um posto importante na sociedade parisiense, passa a se encontrar com diversas moças, uma mais desinteressante que a outra. Em um mundo de prazeres artificiais e relacionamentos passageiros, Gaston admite o tédio, tentando encontrar algo genuíno e puro. Seus únicos momentos de diversão, são ao lado da jovem Gigi, que vive sob a rigidez da avó. Sua tia lhe dá aulas de etiqueta, entendendo que, para que a sobrinha prospere na sociedade, ela precisa estar alinhada com os ideais de plástico. O trabalho de direção de arte é formidável, responsável por dar glamour e profundidade ao universo concebido por Minnelli. As cores são fortes, postas em seus tons mais intensos, com destaque para o vermelho e para os detalhes em dourado, sintetizando o desejo das pessoas pela fomentação de uma imagem calcada no poder e na ambição. O mundo colorido, aos poucos, ganha contornos caricatos, enfatizando o vazio de seres cujas roupas pomposas as transformam em verdadeiros bonecos de porcelana.   

O figurino de Gigi, por sua vez, salienta seu caráter ingênuo e doce. O vestido quadriculado e o chapéu são os símbolos que chamam a atenção de Gaston. Seu jeito desajeitado é o que a torna charmosa, destoando das outras mulheres. A questão é que, enquanto Gaston percebe que se apaixonou – vale ressaltar que tal descoberta é exposta, inteligentemente, numa sequência musical -, a protagonista se aproxima cada vez mais da padronização, assimilando os ensinamentos da tia. Voltando à riqueza dos figurinos, é curioso notar que, mesmo quando trajada com pompa, Gigi mantém a pureza, realçada pelo branco e pelo azul. A química entre os dois é um dos pontos altos do filme, justamente pelo contraste de experiências e pela energia de Leslie Caron. A atriz não tem culpa se o roteiro caracteriza sua personagem de uma forma rasa, limitando-a a ser carismática e adorável. Não sabemos quais são as aspirações de Gigi, se ela tem opiniões sobre às aulas as quais comparece ou se acredita no amor. A protagonista perambula e existe, sem qualquer nível de complexidade, o que é reforçado pelo desfecho corriqueiro, no qual nada parece muito honesto. Eu gosto do cinismo do texto, administrado pela encenação de Minnelli, mas falta algo. Tudo é posto num degrau inicial, sem cuidado para aprofundamento nem destreza para encantar musicalmente.

“Gigi” tem seus méritos e funciona como bom entretenimento; todavia, não deixa de ser uma decepção.

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