“Flipped” foi o último grande filme de Rob Reiner e é, também, um dos mais subestimados de sua carreira. O principal mérito do cineasta é ampliar as perspectivas, permitindo que o espectador conheça Bryce Loski e Juli Baker igualmente. Por vezes, vemos a mesma situação por um ângulo diferente.
O que parece concreto pelo relato de um deles, ganha novos contornos quando o outro toma o espaço central. Essa opção, potencializada por um excelente trabalho de montagem, contempla a complexidade de mentes que estão experimentando um novo sentimento e que se sentem invadidas por sensações estranhas.
Juli sempre foi apaixonada por Bryce. Aos olhos do garoto, ela é invasiva e escandalosa, sendo capaz de cheirar seu cabelo durante a aula e de abraçá-lo na frente de todos. Bryce a acha estranha por passar horas do dia no topo da árvore da vizinhança. Tendemos a concordar com ele, até entendermos que a árvore é, na verdade, um símbolo da maturidade de Juli, que, embora jovem, consegue enxergar as coisas por uma perspectiva mais ampla e bela. Ela está aprendendo a fazer o mesmo com as pessoas e talvez esteja perto de concluir que Bryce não é tudo isso. Se ele a odeia, por que se preocupa com sua tristeza e sente sua falta na van? O voiceover é um artifício perigoso, mas que, quando bem utilizado, engrandece narrativas. As palavras de Bryce contrariam sua feição, salientando sua resistência para admitir que sente algo pela garota. Aqui, o voiceover ilustra brilhantemente como nossa mente pode ser traiçoeira, pregando peças e mantendo nossos pensamentos ativos a todo instante.
O roteiro confere uma relevância considerável às famílias, afirmando que os protagonistas são, de certa forma, extensões de seus superiores. Steven, pai de Bryce, é um sujeito esnobe e preconceituoso que transformou o pragmatismo num lema pessoal. Ele tinha o sonho de seguir uma carreira musical, mas optou pela segurança. Ao relembrar dos velhos tempos, seu rosto denota uma forte melancolia. Steven se refere aos Baker com desdém e é incapaz de gestos carinhosos. Bryce tem, em casa, o exemplo de um homem covarde e silenciosamente infeliz – seu sucesso parte da observação de tais fatos. O início da adolescência é marcado pela pressão dos colegas. É difícil encontrar a melhor versão de si, pois você ainda não é forte o bastante para desagradar aos demais.
Richard, pai de Juli, é sensível e prestativo. Os Baker, humildes, vivem com dignidade, ensinando valores importantes aos filhos. Trina gostaria de viver num conforto maior, mas entende que Richard precisa se desdobrar para garantir o bem estar de Daniel, seu irmão, que nasceu com TDI. Juli tem pilares muito bem definidos, o que conversa com sua facilidade para defender causas importantes, como, por exemplo, a manutenção da árvore. Chet, avô de Bryce, interpretado por John Mahoney, é quem realiza o meio campo, percebendo as raras qualidades de Juli e encorajando o neto a seguir os mesmos passos.
As posições se invertem, com Bryce, após uma série de bolas fora, apaixonado e Juli, magoada, revendo prioridades. Nessa idade, a linha entre a implicância e a paixão é tênue. Bryce não sabe se a quer por perto ou longe; não sabe se joga seus ovos de galinha no lixo por raiva ou para não magoá-la. Aos poucos, a situação fica mais nítida e Reiner fecha a narrativa da forma mais doce possível. A câmera se afasta, apresentando a visão do topo da árvore, colocando o casal em sintonia e realizando uma bela rima. A fotografia e as escolhas musicais dão um ar nostálgico e convidativo, refletindo o espírito jovial e respeitando a época em que o filme se passa (década de 50).
Madeline Carroll e Callan McAuliffe estão encantadores em seus respectivos papéis. Eles apresentam maturidade sem perder a essência inocente. “Flipped” é uma preciosidade que merece um reconhecimento maior.



