“Mishima” foi um dos poucos filmes que me deixou sem palavras. Bem, primeiro gostaria de dizer que entrei completamente cego, não sabia quem era Yukio Mishima e demorei um pouco a compreender a lógica narrativa idealizada por Schrader. A montagem pode parecer desconexa, flutuando constantemente entre o presente, o passado e o fictício, mas não, ela é absolutamente impecável, combinando perfeitamente as linhas temporais e realizando cortes que, além de significativos, esbanjam sensibilidade.
“Mishima” é um filme essencialmente japonês, mesmo tendo sido dirigido por Paul Schrader e produzido por Francis Ford Coppola e George Lucas. Digo isso, não só pelos aspectos tradicionais e culturais, mas, principalmente, pelo tom poético e melancólico da obra. A fotografia diferencia os espaços, mostrando que, para Mishima, suas obras eram sua salvação, o que dava cor e sentido à sua vida. Ele surge primeiro ainda criança, morando na casa da avó, que o havia tirado dos braços de sua mãe, alegando debilidade e apelando para chantagens emocionais. Em determinada cena, os dois vão ao teatro. O protagonista fica encantado com a natureza camaleonica do palco e ressalta: “homens se transformam em mulheres”.
Três de suas obras são apresentadas. A primeira é sobre um jovem gago que via na beleza a sua maior inimiga. Ele observa templos, se aproxima dos seios de uma menina, todavia, não consegue tocá-los. As coisas mais perfeitas o afligem, fortalecem a sua fragilidade e o colocam em um lugar perigoso de autodepreciação. “A beleza eterna é um veneno”. O que me encanta nesse fragmento é o cenário – convidativo e belo – impecavelmente verde, com seus caminhos muito bem construídos. A luz do templo suga o personagem, que suspira. A segunda obra explora a relação sadomasoquista entre um jovem e uma mulher. “Sua pele é tão perfeita, tive que cortá-la”, diz a personagem, em um diálogo que conversa diretamente com o conto anterior. O foco de Mishima é a busca pela perfeição. O homem que chega aos quarenta anos não irá morrer da maneira mais bela. No auge de sua musculatura, o rapaz aceita esse relacionamento que termina de forma fatal, dando a ele um desfecho digno dentro da cultura japonesa. A terceira obra é a mais política e a que mais se relaciona com o o fim de Mishima. Um jovem rebelde monta um grupo baseado na pureza absoluta, indo na contramão de qualquer ideia moderna de governo, no caso, o capitalismo. A cena mais emblemática do filme é, sem dúvida alguma, aquele na qual os fanáticos, sem o apoio dos militares, renovam os votos. Distante e sem entender aquela cultura, fiquei genuinamente tocado com a união daqueles jovens. Reparem que o céu está próximo deles, salientando que a morte, nesse sentido, é uma honra que poucos tem acesso.
Como esses contos conversam com a história de Mishima? O protagonista enxerga no fim o ápice da arte. A beleza eterna o incomoda, ela não existe e a morte no momento exato é considerada algo extraordinário. Na infância, um de seus professores disse que seus poemas eram ridículos, enfraquecendo sua autoestima. Mesmo com o sucesso, o protagonista não parece convencido de seu talento, tanto que cita a falta de traduções no ocidente. Assim como o personagem do primeiro conto, Mishima era extremamente solitário e inseguro. Na juventude, ele dizia que queria fazer sucesso, todavia, com o tempo, isso se tornou um fardo, não à toa, sua vida adulta foi voltada para outras prioridades, tendo as obras se transformado em uma forma de fuga ou de adentrar de vez a sua realidade. Mishima era bissexual e afirma que vestiu uma máscara a vida inteira. Ele fica triste ao ouvir de um companheiro que está flácido, afinal, estava na plenitude da idade e, radical como era, faria de tudo para mudar essa condição. O lado masoquista de Mishima está em seu fervor ideológico, que defende o bushido e o seppuko (suicídio). O protagonista é, simultaneamente, sereno e insano. Seus relatos em viagens são bonitos e sua coletivas de imprensa são bem-humoradas, mas sua facilidade em enfiar uma faca em suas entranhas é assustadora. Suas atitudes não são impulsivas, pelo contrário, são extremamente racionais, oriundas de uma mente ultra tradicional. Sua contradição em relação a arte também é interessantíssima. Sua vida foi marcada por suas obras, no entanto, elas não o saciaram inteiramente, tendo dito, inclusive, que: “palavras eram enganosas, ações não” e ”o sangue falso não é suficiente”.
Mishima fala de seu exército com muito orgulho, uma espécie de fonte libertadora do Japão moderno. No presente, acompanhamos o seu último dia. Lentamente, ele coloca um uniforme elegante, provavelmente um fetiche seu, já que seus comandados também o utilizam. Diferentemente do restante do filme, marcado por um tom lírico e poético, o final é cru e brutal. Schrader utiliza a câmera na mão e close ups para potencializar a tensão na sala do líder japonês, prestes a morrer. Há muito caos, contra plongées, planos aéreos, discursos, até que o protagonista percebe que o povo não o escuta mais. Sua voz deixou de ser influente e, de certa forma, é como se suas obras – tão premiadas – tivessem morrido ali também, com uma facada na barriga. O desfecho é lindíssimo. Todos que aparecem ao longo do filme são Mishima: a criança criada pela avó que sofria bullying, o garoto convencido, o jovem que não sabe como se aproximar das garotas, o escritor, o adulto inseguro em relação ao seu corpo e a sua sexualidade, o bodybuilder e o líder carismático, amável e fanático. Há uma humanidade dentro de sua loucura. Perdido como eu estava no início, é bonito perceber, mesmo que não por inteiro, um arco tão significativo, repleto de personas e camadas.
Entretanto, não poderia deixar de dizer que, acima do estudo de personagem, está a experiência sensorial e poética que Schrader nos proporciona. No fim, você pode não tirar conclusão nenhuma sobre Mishima e tenho certeza que, ainda assim, o filme terá valido a pena. O cinema passa pelo cuidado de seus realizadores, o que eles querem transmitir para o espectador e “Mishima” é uma verdadeira carta de amor à sétima arte. O presente é tomado por tons “realistas”, o passado pelo preto e branco e a ficção por cores fantasiosas. A melancolia – percebam que o jovem Mishima está sempre ligado às sombras -, o cotidiano e o inalcançável se misturam, permitindo que o espectador sinta uma variedade de emoções impressionante. O roxo da segunda história ressalta a questão do suicídio, já o dourado da primeira, expõe a opressão que a beleza gera no rapaz.
O design de produção segue a mesma proposta, inundando a tela de cores vivas e objetos que variam entre o lúdico e o moribundo, sem falar nos cenários absolutamente deslumbrantes. Paul Schrader domina o filme com maestria. O diretor abusa da variedade de ângulos para exprimir os mais diversos significados, sendo, na minha opinião, o mais belo e empático, aquele que coloca os rebeldes próximos em relação ao céu. Na frente deles, a luz vermelha tem a conotação de violência, contudo, uma que os leva para um lugar melhor – libertadora. O plano-detalhe da mão trêmula na espada também é sensacional. Schrader confere um aspecto teatral aos cenários nas sequências fictícias, expondo o que tem atrás das paredes, expandindo a beleza das tomadas, tornando-as também uma homenagem às obras de Mishima. O diretor expande os limites da linguagem cinematográfica, transformando seu filme numa espécie de balé, repleto de movimentos e cores.
Ken Ogata está impecável. O ator transmite todas as facetas do protagonista com a complexidade que ele exige. Sua alteração física é notável, assim como a imposição crescente que culmina no desfecho.
Deixei por último a trilha sonora épica, sensível, melancólica e tradicionalmente japonesa do genial Philip Glass. A música que termina o filme é uma das coisas belas que já escutei.
“Mishima” é uma obra prima diferenciada.
