Rope, de Alfred Hitchcock. EUA, 1948. 80 min.
Alfred Hitchcock é até hoje um dos mais queridos cineastas de todos os tempos e seu legado continua encantando fãs de diferentes gerações. Muitas décadas antes de James Cameron e Quentin Tarantino, Hitchcock foi o primeiro cineasta a tornar-se uma celebridade conhecida do grande público, e foi o primeiro do mundo a ser considerado pela crítica como diretor autoral – alguém com autoridade artística para imprimir sua marca pessoal e inconfundível em cada um de seus filmes. O “velho Hitch” foi também um pioneiro diretor experimental, ousando na técnica e nos temas de suas produções: Interlúdio (Notorious, 1948) foi o primeiro lançamento de um grande estúdio americano a ambientar sua trama no Rio de Janeiro; Disque M para matar (Dial M for murder, de 1954) foi filmado em 3D; Psicose (Psycho, 1960) mostrou cenas de nudez fortes para a época, e Marnie, confissões de uma ladra (Marnie, 1964), tinha uma combinação ousada de cenários pintados em lona e locações reais.
Tanto na técnica quanto no tema, Rope foi a produção mais arriscada de Alfred Hitchcock. Além de ser seu primeiro filme colorido, foi filmado em tempo real e foi o primeiro filme comercial da história do cinema com personagens gays como protagonistas.
A trama é baseada em uma peça de teatro que por sua vez baseou-se em um caso real de dois universitários gays que assassinaram um adolescente em Chicago em 1924. No filme, os personagens principais são Phillip e Brandon, que oferecem um jantar para um grupo de pessoas relacionadas a um crime por eles cometido. O aspecto técnico do filme é genial: exceto pela cena inicial, tudo foi filmado em um único cenário em tomadas contínuas de até 10 minutos de duração. Ao final de cada tomada, a câmera focava um ponto, o rolo era trocado era a ação continuava. Para isso, todos os móveis e paredes eram continuamente movidos por contra-regras que engatinhavam pelo chão arrastando objetos para que a câmera pudesse se movimentar livremente e depois os recolocando-os no lugar para serem novamente filmados na posição original.
Os movimentos dos atores também foram cuidadosamente coreografados para desviar dos cabos elétricos e microfones, e o cenário de fora da janela mostra uma reprodução exata das sombras dos edifícios de Manhattan conforme o pôr do sol. Até mesmo as nuvens, feitas de fibra de vidro, mudam de formato conforme a ação se desenvolve.
Rope foi realizado no auge da vigência do Código Hays, um conjunto de regras autoimposto pelos estúdios de cinema dos Estados Unidos que vigorou entre 1934 e 1960 para censurar cenas que tratavam de relacionamentos sexuais e amorosos em suas produções. Se nesta época os filmes só podiam mostrar marido e mulher dormindo em camas separadas, imagine as proporções das proibições impostas a menções de homossexualidade. Mas de alguma forma Alfred Hitchcock sempre conseguiu manter a ambiguidade sexual como tema frequente de seus filmes quando assim o desejava, seja mostrando situações veladas de homoerotismo ou personagens femininas que, sem qualquer explicação aparente, vestem-se com paletó e gravata e comportam-se como homens. Festim diabólico, porém, é a sua obra que trata do assunto com maior profundidade – tanto que Cary Grant e Montgomery Clift, os maiores galãs da época (que eram gays), recusaram papéis no filme por receio de especulações sobre sua sexualidade real.
A própria vida sexual de Alfred Hitchcock sempre foi tema de especulações. Há quem afirme que ele manteve tórridos casos amorosos com suas protagonistas loiras e com seus galãs musculosos, mas a história mais plausível é também a menos interessante: aos 27 de idade, ele teria se casado virgem e teria tido apenas uma relação sexual com a esposa durante toda a vida (da qual nasceu sua filha Patricia).
Festim diabólico foi lançado no Brasil em DVD como parte de uma coleção da Universal que traz ótimos extras, entre eles uma entrevista com o roteirista Arthur Laurents na qual ele conta como tratou a relação homossexual entre os personagens Phillip e Brandon no maior clássico do gênero: “Só os censores não perceberam, pois eram muito burros! Além dos aspectos técnicos inovadores, Rope é até hoje um dos filmes mais importantes do cinema pela maneira sofisticada com que trata a homossexualidade.”
