“71 Fragmento De Uma Cronologia Do Acaso” não tem apenas um título peculiar, sua narrativa é um verdadeiro desafio para o espectador, que precisa juntar cacos, pequenas passagens na vida de pessoas aleatórias e formar um painel que reúne todos os sentimentos e ideias sutilmente deixadas por Haneke ao longo do filme.
Um garoto perdido é apresentado através de um plongée – ângulo que volta a ser utilizado no final. Ele é romeno e não podemos dizer que fugiu, pois não tem pais. Sua trajetória se baseia em roubos, um deles bastante ingênuo e delicado por sinal – uma revista infantil -, a incessante busca por sobrevivência, caminhadas que não o levam a lugar algum e numa observação constante. Sentimos no olhar daquela criança, em um país no qual não entende a língua, uma vontade imensa de ser amado e de ter amigos. Inteligente, ele percebe que a única chance de ser notado é se entregando para a polícia, assim seria entrevistado por um jornal e chamaria a atenção de pessoas sensíveis.
É o caso dos Brunner, que não podem ter filhos e decidem adotar uma garota que, por medo, nervosismo ou desprezo, não demonstra nenhum tipo de carinho pelos novos pais, que fazem de tudo para agradá-la, ainda que desajeitadamente. A história de Marian os comove, no entanto, o que o casal realmente enxerga nele é uma oportunidade de ter um filho que os tire do buraco e de um cotidiano robótico.
Hans e Maria também são casados e, diferentemente dos Brunner, têm um bebê, que está quase sempre doente – claramente decorrente da relação tóxica, silenciosa e melancólica que eles nutrem. Ao acordar, Maria chora, enquanto Hans reza para que sua depressão e a da esposa sumam, que sua filha fique saudável e que a paz mundial se torne uma realidade. Ele bebe para aguentar o vazio de seu cotidiano, que gira em torno de um trabalho monótono num banco, diálogos forçados com a esposa e agressões físicas.
Tomek é pai de uma das colegas de trabalho de Hans. Sua solidão é tanta, que ele finge que irá pagar um boleto só para conversar rapidamente com a filha, que o dispensa “educadamente”. Há uma grande ambiguidade por trás desse senhor, que não dá muita importância para os requerimentos de seu médico, mas que fica horas no telefone, inventando assuntos, implorando para falar com a neta, usando a autodepreciação como um artifício de convencimento. “Desculpe por existir”. “Já deu”.
Por último, temos Max, um estudante de dezenove anos que precisa fazer um trabalho de geometria envolvendo uma cruz – no fim das contas, bastante simbólica. Ele é atleta de tênis de mesa e a pressão que sofre é intensa, evidente na longa cena em que rebate centenas de bolas, parecendo estar à beira de um colapso nervoso.
Em paralelo, um militar rouba uma pistola e vende para um de seus colegas, que a entrega a Max, culminando no já sugerido desfecho.
Não conhecemos essas pessoas, temos apenas uma leve imersão em momentos muito específicos de suas vidas, talvez enganosos, mas certamente atuais. Haneke não pensa em fazer um estudo de personagens, seu intuito é criar um mosaico no qual todos, de uma maneira ou de outra, dividem dores. Podemos considerá-los seres constantemente violentados, seja pela própria consciência, seja fisicamente, seja por uma pressão externa, seja pela solidão, seja pelo abandono. Na maioria dos filmes com essa temática, teríamos um final feliz, em que as pessoas vislumbrariam novas perspectivas e encontrariam saídas para os seus dilemas. O interesse de Haneke está na rima com as constantes notícias jornalísticas, que trazem à tona somente tragédias em lugares distintos do mundo, incluindo guerras civis, um possível novo holocausto e o inconclusivo caso de abuso infantil do astro Michael Jackson. Não, ninguém seguirá em frente e ultrapassará seus obstáculos. A violência de seus cotidianos apenas se torna mais cruel e fatal. Haneke voltou a criticar de forma efusiva a brutalidade humana em “Funny Games”, contudo, podemos dizer que sua abordagem aqui é global. Sua genialidade está na forma como expõe ao espectador que o que ocorre no mundo é apenas o reflexo do que acontece em pequenos núcleos. No fim, o micro se torna macro e ocupa o mesmo espaço de guerras e bombardeios nos noticiários. Tudo, de alguma forma, está conectado.
A fotografia aposta em tons azulados e acinzentados e não poderia ser diferente. A melancolia e o pessimismo estão em cada fragmento, magnificamente explorados por Haneke.
O diretor abusa de planos longos para gerar desconforto – os dois maiores exemplos são a cena em que Max rebate as intermináveis bolas e a que Tomek faz de tudo para a filha não desligar o telefone. Ao lado de seu montador, Haneke brinca com a intuição do espectador, que se vê “trapaceado” algumas vezes. Quando achamos que uma sequência se encerrará, ele deixa sua câmera firme e estática e quando temos certeza de que algo além do esperado irá acontecer, há um corte abrupto. Isso é espetacular, revela tudo o que precisamos saber sobre o filme. Haneke nos mantém intensamente presentes em momentos frios, desagradáveis e banais, o que, de certa forma, é empático. Não existe espaço para respostas óbvias e cenas “leves”, simplesmente porque seu texto vai na contramão de qualquer suavidade. Assistimos por diversas lentes a violência diária e, se não fosse tão orgânico e inteligentemente pensado, o desfecho poderia soar forçado. Mas não, é apenas uma outra magnitude para o que já estávamos presenciando, um alinhamento com a “cultura mundial”.
Os longos espaços entre cada plano retornam e tem exatamente a mesma conotação usada em “The Seventh Continent”: o prenúncio do fim.
Haneke se prova também competente ao criar uma forte tensão no fim, graças a maior intensidade dos cortes. A impessoalidade do massacre é fundamental. Não importa quem morreu, apenas que foi um número expressivo. O diretor utiliza ângulos baixos, todavia, sua câmera está mais interessada em observar o sofrimento daquelas pessoas, seus rostos.
Não vou negar, “71 Fragmentos De Uma Cronologia Do Acaso” não é uma obra simples de se adentrar; é crua, realista e aposta apenas em sons diegéticos, mas é impecavelmente concebida e dificilmente será esquecida.
