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A sequência de abertura de “Everybody Digs Bill Evans”, em que os créditos rolam, é uma das mais belas que eu vi nos últimos anos. A fotografia em preto e branco, de toques esfumaçados, traz uma aura cool, que o combina com o jazz. Os planos-detalhe das teclas do piano e das cordas do contrabaixo são uma declaração de amor a esse gênero musical, reforçando a mágica sinergia entre Bill Evans e Scott LaFaro, que, com o baterista Paul Motion, formavam um trio cultuado.

O tema “Jade Visions”, gravado para o famoso álbum “Sunday At The Village Vanguard”, parece ter saído diretamente do paraíso das artes. É um início formidável, que transporta o espectador para a década de 60, num clássico clube de jazz. Essa, no entanto, não é a tônica do filme, que tem como recorte o período em que Bill lidou com o luto pela perda de LaFaro, morto num acidente de carro.

Repentinamente, o clima muda. As batidas jazzísticas, pontuadas pela montagem, soam tempestuosas. O protagonista é convidado para morar com Harry, seu irmão. A fotografia em preto e branco, antes associada ao cool, passa a devorar o rosto de Bill, imergindo-o num mundo de sombras. Harry e sua esposa tentam ajudá-lo, mas o pianista não parece interessado em sair do buraco. A voz cansada e a repetição da frase “está tudo bem” são sinais da inércia de um homem que perdeu a vontade de viver. Os grandes gênios do jazz, em grande medida, são figuras trágicas, quase amaldiçoadas. Bill vive pela música, pela capacidade de se expressar através de seu instrumento. LaFaro não era apenas o baixista de seu trio, mas uma espécie de alma gêmea; alguém cuja relação era intuitiva. Sem ele, Bill se vê incapaz de seguir adiante. Esse foi o período (1961) em que o protagonista mais se entregou às drogas, com forte influência de Elaine, sua parceira. Os planos-detalhe deixam de ser dos instrumentos musicais, sendo, agora, de agulhas e marcas no braço. Aos poucos, percebemos que ele não faz ideia de quem são seus familiares. Harry, por ter construído uma vida estável, é, na sua visão, um sujeito realizado e feliz. Pelo contrário. Além de conviver com uma certa tristeza por nunca ter conseguido ser pianista, Harry sofria de uma série de questões psicológicas que, mais tarde, o levaram ao suicídio.

Afundado nas drogas, Bill é enviado para a casa dos pais, na Flórida. O falatório na mesa, destacado pelo design de som, aponta para um contraste de personalidades e para possíveis desavenças; no entanto, o que vemos é o oposto. Longe de Nova Iorque, o antro da perdição, Bill se reconecta com um afeto primitivo, de cunho maternal. O momento em que o vemos no canto do quadro, encolhido, enquanto sua mãe cuida de tudo, é especial. Seu pai, que também se chama Harry, é uma figura ímpar, que, embora não seja muito bom em demonstrações de carinho, é empático e engraçadíssimo. Na Flórida, há espaços abertos e as sombras dão lugar a uma claridade de esperança. A família é a base que o redireciona às teclas. Está na hora de se reinventar.

Ao optar por se concentrar no período de afastamento dos palcos, o diretor Grant Gee abre mão das cenas musicais, o que, apesar de narrativamente correto, é uma pena; afinal, as melhores sequências envolvem jazz. Aquela em que Bill, emocionado, escuta seu álbum com os pais é especialmente linda.

O principal problema são os saltos temporais, que engordam a narrativa, acrescentam pouco ao contexto e acabam sendo intrusivos. O impacto deles é negativo, sendo incapazes de dialogar com a linha temporal central. Não precisamos ver Bill morrendo em 1980; seu arco, neste filme, não é sobre isso. Já que Gee gosta tanto de intromissões, ele poderia nos ter brindado com um flashback do auge do trio.

Ninguém melhor do que Anders Danielsen Lie, um ator naturalmente enfadonho (brincadeiras à parte, ele é bom), para viver um artista tão intransponível e silencioso. Bill Pullman, que interpreta Harry pai, é um imã de carisma e rouba os holofotes para si. “Everybody Digs Bill Evans” é imperfeito, mas tem momentos de rara perfeição.

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