Dirigido por Alan J. Pakula, “Comes a Horseman” é um autêntico Western revisionista. Os espaços vazios, o protagonismo feminino e o capitalismo como grande vilão são elementos típicos da Nova Hollywood. “Nunca vi um lugar tão bonito”, diz um dos personagens. Quando Pakula e Gordon Willis se juntam, o resultado é este. Os planos gerais, além de captarem uma rara beleza natural, constroem o argumento de que os seres independentes são pequenos demais para vencer num lugar tão vasto.
Dennis Lynton Clark, que assina o roteiro, e Pakula investem num ritmo morno, que combina a pacatez e o caráter bucólico daquele ambiente – afinal, não estamos falando de um Oeste Selvagem como o de outrora -; todavia, se não fosse por Willis, que parece pintar quadros em tempo real, o filme não seria marcante. Ella, interpretada por Jane Fonda, é uma mulher forte que não cede aos esforços de Jacob Ewing, que deseja tomar sua terra para explorar o petróleo. Ella tem uma casca difícil de ser contornada; ela dificilmente pede ajuda e não demonstra interesse em se relacionar com ninguém, mantendo tudo num âmbito profissional. Quando Frank, um andarilho ferido que perdeu seu colega numa emboscada, se oferece para trabalhar em suas terras, Pakula e Willis tiram o máximo de proveito das interações, alongando os planos, prestando a atenção nas reações da protagonista. O silêncio é revelador e denota respeito. No momento definitivo, Ella fala sobre seus traumas, envolvendo os abusos de Ewing, com quem teve relações sexuais na infância e era amigo de seu pai, a câmera fica nela, até que Frank se aproxima e se coloca à disposição, como um parceiro fiel e empático. Não à toa, na sequência seguinte, os dois estão num baile, dançando, em um espaço aberto – reparem no figurino mais leve de Ella.
Willis transforma as sombras num elemento-chave na narrativa: este é um filme vagaroso e intimista, em que os personagens correm perigos palpáveis e escondem alguma melancolia. As sombras também destacam a maldade, personificada na figura de Ewing, um ser ganancioso, disposto a qualquer coisa para chegar ao topo. O uso de contra-plongée é perfeito para salientar sua imponência – a partir dos enquadramentos, sabemos que estamos diante de alguém impiedoso. Igualmente relevante, é como a direção de arte caracteriza sua residência, dominada por escadas e móveis vermelhos. Em contrapartida, a pequena casa de Ella é simples, sem qualquer tipo de extravagância – o embate entre duas forças de diferentes faces. Há uma rima visual especialmente fascinante, envolvendo Ewing e Frank. Quando se conhecem, o herói está deitado, machucado, e o vilão, de pé, declarando que foi o responsável pela tal emboscada. No clímax, as posições se invertem, numa prova de sofisticação por parte de Pakula, que expõe seu otimismo através da imagem. No último plano geral, o casal se abraça, provando que, sim, é possível sobressair, mesmo que, a princípio, pareçam pequenos para a magnitude da situação.
A trilha sonora, em sua suavidade, é essencial para a construção de uma atmosfera tranquila, que contrasta com o mal que fica à espreita. James Caan está ótimo no papel do herói carismático, sendo a força que eleva Ella, cujo arco permite que ela, enfim, peça ajuda. Jane Fonda transmite uma rigidez imensa, mas são seus pequenos gestos que constroem uma personagem verdadeiramente gigante. Jason Robards rouba a cena sempre que aparece, encarnando o mal com astúcia, cautela e acidez. “Comes a Horseman” é um belo e subestimado filme.



