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“Broadcast News” é um belo exemplo de que obras primas podem ser simples. Trata-se de uma simplicidade que apenas grandes artistas alcançam e que tem o potencial de atingir a alma do espectador. James L. Brooks estabeleceu uma carreira com filmes assim. Claro, ele tropeçou algumas vezes, mas, quando acertou, deixou seu nome numa seleta lista. Em 1987, Brooks chegou ao ápice. “Broadcast News” é engraçado, charmoso e relacionável. Estamos falando de um dos melhores roteiros que já saíram de Hollywood e de um elenco cuja química é quase imbatível. 

Brooks abre a narrativa com os personagens ainda na infância. Tom é bonito, mas não é dono de uma inteligência elevada. Aaron, embora se destaque na escola, é alvo dos colegas e não tem grandes habilidades sociais. Jane é estudiosa e certinha a ponto de corrigir o pai. Os anos passam e os três, agora adultos, são colegas de profissão. Tom é contratado para ser o âncora do jornal nacional, em Washington. Ele mesmo não se considera um jornalista qualificado, admitindo que não entende mais da metade das matérias que noticia. Dito isso, Tom é um excelente comunicador, que esbanja carisma, não se intimida diante das câmeras e tem a aparência ideal para cativar o espectador. Jane é a produtora. Seus padrões de excelência jornalística são altos; não à toa, a princípio, ela desaprova o perfil do novo âncora. Para Jane, o jornalismo é uma ideologia, algo que deve ser defendido com unhas e dentes por aqueles que reconhecem seus princípios éticos e estão dispostos a ir aos confins do mundo para trazer informação relevante às massas. Aaron, seu grande amigo, sonha em ser âncora, no entanto, assim como na infância, falta-lhe uma dose de destreza social para ser um rosto televisionado. Por outro lado, seus textos são brilhantes e o seu compromisso com o bom jornalismo é elogiado por todos. Brooks apresenta o trio, deixa que dialoguem entre si e nos insere nos bastidores da notícia.

Tom tem tudo que os outros jamais terão: fama e um salário astronômico. Não lhe falta nada e, ainda assim, ele é o personagem mais inseguro. Uma redação jornalística é formada, quase sempre, por eruditos e pseudo intelectuais. Qualquer um que fuja deste padrão e que não preze por um intelecto aprimorado, será visto como um estranho no ninho. Pior: será um nêmesis, alguém que alcançou o sucesso sendo a personificação daquilo que há de errado na profissão. Tom reconhece a situação e prova, aos poucos, que todo jornal precisa de diferentes características. Talvez ele não seja capaz de escrever um texto coerente ou de pensar numa matéria interessante; todavia, sem a sua presença de tela e facilidade para enfatizar as palavras corretas, nada funciona. Tom é o divisor de águas do triângulo, expondo verdades desconhecidas pelos demais. Sua relação com Aaron é interessante, justamente por eles representarem pólos opostos. Cada um tem aquilo que o outro não tem, o que resulta em interações tomadas por intimidação de ambos os lados, mesmo quando o clima é amistoso. Aaron sabe que nunca terá a aparência nem o carisma de Tom, que sabe que nunca terá a astúcia e a inteligência do colega. É apavorante conviver com o seu ponto fraco. O roteiro poderia cair em clichês, mas opta pela maturidade, mostrando ao espectador que, numa redação jornalística, formada por adultos de bom caráter, o trabalho em equipe prevalece. Sim, tem uma espezinhada aqui e uma provocação ali, porém, no fim do dia, Tom e Aaron são parte de uma engrenagem que precisa estar em sintonia para funcionar. 

Jane é uma grande jornalista e está prestes a se tornar uma grande mulher. Há uma certa introspecção que afeta seu humor. Os choros repentinos são um sinal de que algo não está bem ou que não foi devidamente explorado. Tom pode estar na contramão de seus valores profissionais, mas é quem desperta sua sensibilidade humana. Holly Hunter é sutil ao demonstrar a paixão sentida por Jane, como, por exemplo, na forma como suspira e segura o telefone – são expressões novas em seu rosto e corpo. Aos poucos, ela percebe as notáveis qualidades de Tom e se desprende das amarras que a mantinham no estereótipo de jornalista tensa. Somente quando um “rival” aparece, que Aaron se declara para Jane, o que reforça a relevância narrativa de Tom e o cuidado de Brooks para fomentar, sem alarde, uma comédia romântica. Tom representa uma saída da zona de conforto, levando Jane a um lugar de novos prazeres e de abraçar genuinamente a sensibilidade humana. O roteiro escolhe o final mais difícil, privando o espectador de um final convencional feliz. Na vida, as coisas não são definidas em um ano. O casal pelo qual torcemos não precisa, necessariamente, durar para sempre. Coisas acontecem, divergências surgem, novos planos vêm à mente e, aquilo que parecia concreto, vira uma memória. O mais importante é notar que todos estão firmes, seguindo adiante. 

Brooks apresenta o jornal sem grandes peripécias, mas deixando claro que é um lugar para “loucos”. Ele consegue captar um nível incrível de veracidade, sem abdicar das pretensões humorísticas e da formação dos laços afetivos – a sequência do suor é, por si, uma obra prima. Em determinado momento, o cineasta gira a câmera em torno de Tom, enfatizando o trabalho em equipe e o aparato técnico que auxilia o âncora. Nesse sentido, o uso de Split Diopter também é fundamental, criando uma relação quase umbilical. O que é aceito no jornalismo? O que define a linha tênue entre humanismo e sensacionalismo? Essas são algumas perguntas levantadas pelo roteiro. Seria injusto destacar apenas um dos atores. Albert Brooks, Holly Hunter e William Hurt foram escolhidos a dedo e operam como uma grande engrenagem, servindo ao estereótipo de seus personagens e às complexidades que os individualizam. É triste dizer isso, mas “Broadcast News” dá significado à célebre frase: não se fazem mais filmes como antigamente.

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