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“Boleiros” é um filme obrigatório para qualquer fã de futebol. O principal mérito do cineasta Ugo Giorgetti, além da aposta numa narrativa simples, é compreender a mitologia por trás do esporte mais amado no Brasil. Em “O Homem Que Matou O Facínora”, de John Ford, fica nítido que o Velho Oeste existe e sobrevive graças às suas lendas. O mesmo vale para o futebol, cuja graça reside justamente na criação de lendas e figuras folclóricas que mantém a vivacidade da cultura futebolística.

O filme se passa num bar tradicional, em São Paulo, onde um grupo de ex-jogadores divide histórias curiosas sobre diferentes vertentes do futebol. A começar por Virgílio, o árbitro que roubou descaradamente para um time do interior que estava prestes a ser rebaixado. Os amigos lembram de tudo com uma riqueza de detalhes impressionante, brindando o espectador com uma nostalgia deliciosa, potencializada por flashbacks/reimaginação dos acontecimentos. 

A segunda história gira em torno de Paulinho Majestade, um craque que não soube administrar a própria carreira, sendo obrigado a colocar seus troféus à venda. O olhar de Zé, o jornalista, é completamente diferente dos demais. Zé enxerga o homem escondido em sua plena decadência; os outros, apenas Paulinho, o campeão do mundo e orgulho do país. No restaurante, ele é recebido como uma celebridade do mais alto patamar. Paulinho reconhece a idolatria, o que é ressaltado pelo terno que veste, mascarando sua atual realidade. Por que fazer uma matéria triste? Por que não manter a lenda intacta? O povo precisa de ídolos. A terceira história é sobre um garoto de periferia que, às vezes, aparecia para treinar na escolinha de Otavio, um dos amigos no bar. O craque é percebido por seu olhar peculiar. Otavio sabia que estava diante de uma joia e, a fim de ajudar o garoto, meteu-se onde não devia. Giorgetti expõe a dura realidade brasileira, em que grandes talentos não são descobertos e acabam se perdendo num universo de infelicidades. “Puta história triste. Como você vem com uma coisa dessa?” – o caráter informal faz com que o espectador se esqueça que está vendo uma encenação. 

Seguimos com Azul, que vive uma noite de altos e baixos, comum ao destaque da rodada do brasileirão. Após um gol antológico, Azul é convidado para participar de programas de rádio e TV, nos quais é interrompido na maior parte do tempo e é obrigado a escutar pitacos de “especialistas da bola”. Azul ainda precisa driblar uma mulher que está na sua cola e chegar a tempo de uma reunião com o dirigente de um time europeu; todavia, a realidade bate à sua porta quando, de repente, é parado por dois policiais que não o reconhecem, tratando-o como um “mero homem negro”, incapaz de ter um carro importado. Ainda temos a pressão da torcida corintiana, que, impaciente com a má fase, obriga o craque do time, que não sai do departamento médico, a visitar o “Pai Vavá”, um macumbeiro que está respondendo a dois inquéritos policiais. Por último, Mamamá, um dos amigos, conta a história sobre a concentração em que dividiu o quarto com Fabinho Guerra, destaque do Palmeiras e mulherengo profissional. Lima Duarte, que interpreta o técnico enfurecido, rouba a cena neste segmento. “Minha senhora, a senhora não sabe o que é um Palmeiras X Corinthians”. O roteiro adiciona toques melancólicos à narrativa, dando voz aos personagens no bar, que se sentem como heróis sem suas capas; pessoas que aceitam o passar do tempo, assumindo que, hoje, são figuras penduradas em paredes. Eles também são “atos” de nostalgia, mas são justamente esses “atos” que construíram a rica cultura do futebol brasileiro. O título, com “Era uma Vez o Futebol…”, é perfeito para a fomentação desse gosto final que varia entre a visão romântica do passado e a tristeza do presente – até as lendas envelhecem…

“Boleiros” é uma delícia de filme.

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