“Barefoot in the Park” é um filme leve e ingênuo cujo único intuito é deliciar o espectador com a química de seus protagonistas. E, em sua pretensão, ele se sai muitíssimo bem. Paul e Corie Bratter, recém-casados, passam a lua de mel no luxuoso hotel Plaza, em Nova Iorque. A pilha de jornais, amontoada na porta do quarto, é a prova de que o amor fresquinho é quase imbatível. Após os dias de núpcia, o casal se muda para o novo apartamento, onde a narrativa praticamente inteira se desenvolve.
A casa, ainda sem móveis e com as paredes azul claro, é levantada pelo astral de Corie, cuja roupa laranja e a mala vermelha ressaltam sua forte personalidade. Ela é a intensidade em pessoa; animada com as possibilidades do apartamento e nervosa com o possível julgamento da mãe. Jane Fonda emana luz, combinando um turbilhão de sentimentos com sua natural sensualidade. Paul, por sua vez, é racional e tranquilo, demonstrando preocupação somente com seu espaço de trabalho. Ele é um jovem advogado, ainda em ascensão. Sua fúria surge ao descobrir que o apartamento não é tão redondinho quanto imaginava; a clarabóia tem um rombo, o quarto é literalmente um armário e o aquecedor não funciona. Enquanto enfrentam as diferenças de personalidades e os buracos do imóvel, os Bratter recebem a visita do técnico de telefonia e da mãe de Corie. Outro detalhe: não há elevador e as escadarias se assemelham à pirâmide lunar, no México.
“Barefoot in the Park” é uma comédia situacional, na qual dois atores excepcionais entendem a vitalidade de suas presenças e se sobressaem. É um filme de carisma e sorrisos sinceros, evitando questionamentos amargos. A trilha sonora, no início, é bastante ativa, sustentando uma atmosfera que remete às antigas comédias musicais. O ritmo dos diálogos – afiadíssimos – também me fez lembrar de filmes nos quais Fred Astaire e Ginger Rogers, após uma deliciosa discussão, cantavam e dançavam. Mas não, Fonda e Redford não chegam lá, mantendo o espectador imerso no vai e vem de um casal de opostos que se amam. O diretor Gene Saks, limitando os cenários, deixa o show para os atores e para os excelentes trabalhos de direção de arte e figurino. A casa, quando decorada, exala simpatia e aconchego, conversando com o estado de espírito dos personagens. O vestido rosa de Corie, na primeira noite em que saem, contrasta com a roupa azul, usada quando os dois brigam e optam por uma ríspida ruptura – ali, não há força e doçura, apenas melancolia.
Victor Velasco, o vizinho excêntrico que vive no sótão, é o ponto que destaca a diferença entre os dois, obrigando-os a repensar certas convicções. Corie é uma mulher noturna, disposta a se aventurar; Paul é um engomadinho conservador. Velasco surge como interesse romântico de Ethel, mãe de Corie, que não poderia ser mais diferente dele, resultando em sequências engraçadíssimas. O apartamento de Velasco é um enigma desde sua porta de entrada até a decoração chinesa. Quem é aquele sujeito amalucado e bem relacionado? As coisas vão de 8 a 80, mas terminam numa nota doce, divertida e otimista. Redford é quem tem mais espaço para ampliar seu arco, com direito a uma bebedeira que termina com Paul descalço no parque. Pouco se fala nisso, mas poucas vezes vi um ator interpretar tão bem alguém resfriado – Redford transmite o quão insuportável é não conseguir falar direito. Jane Fonda prova, novamente, ser um poço de carisma, conquistando o espectador do início ao fim.
“Barefoot in the Park” é exemplar naquilo que se propõe. Diria que é o filme ideal para um domingo à tarde.



