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“A Prayer For The Dying” é um filme corajoso que se alimenta da voz autoral da diretora estreante Dara Van Dusen. Em Wisconsin, 1870, após a Guerra Civil, uma pequena comunidade está prestes a enfrentar um inimigo muito mais desafiador. O campo evoca paz, mas, sempre que vai para o trabalho, Jacob passa por um cão morto. O protagonista é casado e acabou de se tornar pai. Por vezes, apenas observamos os momentos em família, com a convicção de que estamos diante da beleza em sua forma mais pura.

A cineasta acredita no potencial de sua câmera para estabelecer uma atmosfera de apreensão e dúvida. Seus movimentos são marcados por um controle absoluto. As panorâmicas, a princípio, calmas e indicadoras, passam a ser intensas, suscitando uma tensão crescente. O mesmo vale para os zooms e para as aproximações da câmera, que materializa o mal invisível. Jacob, que é xerife na cidade, e Doc, médico local, são os únicos que sabem que há uma epidemia de difteria. O que fazer? Doc, mais frio e profissional, exige que nada seja dito; afinal, se alguém fugir para outra cidade, a tragédia será muito maior. Jacob, embora concorde com o colega, não consegue fingir que está tudo bem.

A trilha sonora também é fundamental na fomentação de um tom carregado. A diretora explora muito bem o espaço, destacando o vazio cada vez maior e a destruição – no fim, temos praticamente uma cidade fantasma. O trabalho de fotografia é formidável, sendo essencial para a construção da perturbada psique do protagonista, um homem atormentado pelos fantasmas da guerra. A intensa luz vermelha é um alerta de culpa e dos segredos que corroem sua mente, o que é ressaltado pela repetição da frase “Você não me conhece”. Seu arco é em direção ao abismo. Ele sofre por não conseguir ser o herói local e desaba por ver sua família ser destruída. A fumaça/neblina amarela é um sinal da toxicidade que domina a cidade e do retorno ao tempo das trevas. Johnny Flynn oferece uma performance poderosa, funcionando como uma bússola para o espectador. Sua gentileza e serenidade são gradualmente sugadas, dando espaço ao desespero e à dor. A sequência em que ele vai de um riso histérico ao choro copioso é perfeita ao ilustrar o tamanho de seu arco – nesse sentido, sua aparência também é um ótimo “medidor”. John C. Reilly, que dá vida a Doc, mantém uma capa que o evita de descambar para o sentimentalismo. É justamente por isso que, quando ele desaba, sentimos o peso da situação.

É louvável estrear com tanta autoridade, ainda mais com um Western que combina toques naturalistas e apocalípticos. Dito isso, a falta de experiência pesa um pouco. Em determinados momentos, principalmente na sequência final, Van Dusen parece querer se exibir, o que não deixa de ser distrativo. Pior: ela perde a chance de terminar o filme da melhor forma, arrastando-nos por minutos desnecessários. Estes, felizmente, são deslizes pequenos, que não diminuem o brilho de um excelente trabalho.

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