O Ano do Dragão
Nota IMDB:
★ 6,8 /10
Gênero:
Suspense
Ano:
1985
Direção:
Michael Cimino
Roteirista:
Robert Daley, Oliver Stone, Michael Cimino
Estrelas:
Mickey Rourke, John Lone, Ariane

The Year Of The Dragon

Stanley White foi transferido para Chinatown e, diferentemente de seus colegas, que mantinham acordos com os chefões asiáticos, ele está disposto a puxar o tapete e expor o esquema de corrupção. As ruas são escuras e sujas, mas os estabelecimentos, sempre marcados pelo vermelho – não apenas o da China, mas também do sangue que mancha as calçadas -, são elegantes e maquiam a imagem de um lugar controlado por bandidos da pior espécie. Os negócios secundários escondem a mina de ouro: o tráfico de drogas.

O protagonista, que é capitão do Departamento policial, não é o tipo de “herói” pelo qual estamos acostumados a torcer. Ele é egoísta, preconceituoso e machista, no entanto, essa é a sua chance de redenção; a chance de expurgar os fantasmas da Guerra do Vietnam e de valorizar aqueles que o amam. Na primeira vez em que se encontram, os chineses usam ternos brancos e Stanley, um sobretudo cinza – de cara, são postos em lados opostos da lei. O protagonista não está disposto a cooperar (leia-se, aceitar subornos) e, por mais falho que seja, é o único policial que não aceita nada além da justiça plena.

Seu caminho solitário vale para todas as esferas, inclusive, a matrimonial. Connie deixou de ser uma prioridade e, mesmo a amando, não consegue conciliar suas obrigações, optando pelas ruas inconclusivas e ardilosas de Chinatown. Eis que surge Tracy, uma jornalista interessada no caso, e acaba se envolvendo com Stanley. A relação entre os dois é, no mínimo, curiosa, já que o protagonista não pode ser considerado um cavalheiro e, na maioria das vezes, é direto a ponto de ser indelicado.

Sem seus amigos, o protagonista é apenas um policial à espera de um novo escândalo. Sem Connie, ele fica sem afeto e amor; sem Louis, seu colega no Departamento, ele não tem a quem se abrir em momentos delicados. Quando Stanley perde o controle, se direciona à casa de Tracy, que pergunta se ele não pode ficar em outro lugar. “Você é a única amiga que me restou”. “Eu não conheço ninguém”. O quadro fecha em seu rosto e, pela primeira vez, enxergamos algo além da habitual rigidez e fome por justiça.

Em determinado momento, Tracy diz que o ama e, em vez de se aproximar, ela se afasta, numa sutil demonstração do quão duro e insensível Stanley é. A fotografia azulada, uma das marcas do filme, é especialmente expressiva nessa cena, ressaltando a melancolia e a solidão em torno daqueles personagens.

O protagonista até tenta mudar a mentalidade do Departamento, todavia, é impossível modificar por completo uma corporação que aderiu a ações convenientes. Não há nenhuma evidência concreta de que exista uma máfia em Chinatown, logo, é melhor manter a boa relação do que remexer naquilo que está alinhado e organizado há anos. Stanley é contra a lei do menor esforço, se sabota no processo, sabota as pessoas que ama e se excede, no entanto, é o único que pode acabar com a paz dos criminosos.

Joey Tai orquestrou o assassinato de seu sogro, até então, o chefão local, com a intenção de assumir seu posto. Jovem e sedento por poder, ele não mede esforços para eliminar fofoqueiros e espiões. Cimino, conhecido por sua abordagem visceral em sequência violentas, tem, aqui, um prato cheio para impressionar o espectador com a perversidade dos antagonistas e o vigor do herói. Joey é inteligente, porém autossuficiente e convencido demais para o cargo que assumiu. Seus colegas desaprovam suas condutas, sua falta de cuidado facilita o trabalho do protagonista e, ao se sentar para negociar com os traficantes, a impressão que passa, com seu terno de grife, é que está querendo impressionar pessoas que já conheceram chefões mais imponentes e respeitosos.

Joey é vingativo e Stanley sofre na sua mão, sendo obrigado a frequentar funerais dos quais tinha pesadelo, todavia, no fim, sabemos mais ou menos o que irá acontecer, o que não enfraquece a obra. O roteiro foca no estudo de personagem. Seu drama pessoal é acompanhado por uma brutalidade inesperada – confesso que uma sequência me pegou completamente desprevenido pela mudança abrupta de tom.

Não, Stanley não se transforma num homem perfeito, mas tem a oportunidade de confrontar seus demônios internos e ganha uma segunda chance de provar que é capaz de amar e se importar com alguém. E Chinatown? O circo segue, só não sabemos quem será o próximo palhaço.

As relações secundárias são fundamentais para a resolução do caso e adicionam um toque cômico que enriquece a narrativa. Herbert ainda está em fase de treinamento, entretanto, Stanley convence o Departamento a usá-lo como um policial infiltrado.

-Quantas horas vou trabalhar?

-24 horas por dia, 7 dias por semana.

-Quando vou dormir?

-Esqueça o sono.

-Mas tenho outro emprego.

-Herbert, demita-se.

A relação não fica só no ofício, sendo importante no arco do protagonista. O que falar das freiras que ajudam a traduzir conversas grampeadas? O contraste entre as boas maneiras e o linguajar chulo é genial.

A perseguição na boate, potencializada pelo uso de câmera na mão, que conversa com o clima do ambiente, é espetacular. No banheiro, luzes azuis e vermelhas se misturam – os símbolos da obra: melancolia, solidão, dor, crime e violência.

O duelo final é, sem dúvida alguma, um dos grandes momentos da carreira de Michael Cimino. Sozinho, Stanley corre atrás de Joey, em meio à escuridão azulada. A contraluz e a fumaça conferem um aspecto sombrio, dando ao protagonista um desfecho digno de suas angústias.

A trilha sonora é lindíssima e ajuda na caracterização de Stanley, que nunca se torna superficial ou desinteressante.

Mickey Rourke estava em seu auge e dá vida ao policial combinando o charme que lhe é peculiar, uma completa falta de escrúpulos e uma vulnerabilidade que demora a desabrochar. Quando Stanley desfere um soco em Louis, esperamos que a luta prossiga, mas não, ele diz ao seu chefe: “isso não foi entre policiais, foi entre companheiros dos velhos tempos”. A fala é ótima, mas é a forma como Rourke a entoa que a coloca num patamar acima.

“The Year Of The Dragon” é um dos filmes mais subestimados que assisti recentemente. 

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