Maureen parece preocupada. Seu marido sumiu há três dias – algo recorrente – e ela não sabe muito bem o que fazer. Caminha pelos corredores desgovernadamente, pede ajuda a um homem, o despreza, mais tarde o encontra em um bar, se diverte e acaba sendo estuprada. Suas reações não condizem com a realidade, Maureen não é nada normal, o que fica nítido pela forma como se contradiz a cada instante. Eddie, o marido, aparece e inverte os papéis, se diz preocupado e pergunta por onde ela andava esse tempo todo. Maureen não quer admitir o porquê dos hematomas no rosto, diz apenas que caiu. Ela está grávida e Eddie a leva para o hospital, mas fica com ciúmes pela proximidade do médico. Está tudo bem, a noite está longe de acabar e, mesmo sem um tostão, Eddie a leva para dançar. Maureen não quer, porém aceita e a cena que se segue é uma das mais significativas e bonitas do filme, explicitando o contato visceral e delicado entre os dois. Chegando em casa, ela volta a se contradizer, misturando o impulso para revelar a verdade para o marido com o zelo de mantê-lo tranquilo. Após muitas perguntas e mudanças de comportamento, Maureen diz que foi espancada, levando Eddie à loucura. Sem ter ideia do que fazer para conter a ira do marido, a protagonista decide ligar para um manicômio e logo depois se arrepende. Eddie atira em um dos enfermeiros e foge, até ser interceptado e levado pela polícia.
Apenas John Cassavetes seria capaz de desenvolver personagens tão instáveis, insanos e passionais. Nada é feito por maldade, Maureen não queria o seu marido preso, mas sua cabeça é tão disfuncional, que acreditou que aquela seria a melhor forma de ajudá-lo. Ambos dizem coisas que não fazem absolutamente o menor sentido. Não é simples acompanhar a trajetória dos protagonistas, muitas vezes não entendemos para onde eles estão indo, o que estão fazendo e o que tem em mente. Em determinada cena, Maureen diz que detesta a solidão, talvez seja esse o motivo de sua impulsividade, afinal, Eddie está sempre flutuando, vagando por lugares obscuros. A única coisa nítida é o amor que um nutre pelo outro. É um sentimento tão voraz que se torna destrutivo, tão necessário que passa dos limites. Não tem ninguém no salão de danças, mas Eddie precisa daquele momento com a mulher que ama. Não é uma convenção social, é um desejo. Eles não medem suas atitudes, desconhecem o limite do aceitável e vivem em uma corda bamba, chegando aos extremos com muita facilidade.
Maureen imaginou que Eddie ficaria apenas três meses preso. Dez anos se passam e a mudança de ambiente é notável. Por sinal, tanto o trabalho do design de produção, quanto o da fotografia, são excelentes, conseguindo distinguir os períodos em que o filme se passa. Na primeira parte, temos muita chuva, tons escuros e locações precárias; já na segunda metade, somos apresentados a um espaço muito mais luminoso, luxuoso e aberto. Se engana quem pensa que essa mudança reflete na personalidade dos personagens, muito pelo contrário, pois, como disse, os protagonistas “funcionam” na sujeira, na desordem, no universo belo e caótico onde somente os dois podem habitar. O tempo passou e Maureen se casou com Joey, um homem comum, com quem teve duas filhas. Ela fala com todas as letras que seu grande amor é Eddie. Os diálogos são repletos de tiradas cômicas, mas também são sutis ao exporem a fragilidade dos personagens. Criamos algum tipo de empatia por Joey, que passou anos ao lado da esposa, construiu uma família e, mesmo assim, é completamente esnobado. Maureen parece outra mulher, fisicamente mais atraente, porém mentalmente ainda mais perturbada. Ela se culpa pelo o que aconteceu com Eddie e sorri quando descobre que ele foi solto. O protagonista está disposto a recuperar sua esposa, mas sequer percebe quanto tempo ficou encarcerado. O tempo tem um peso muito grande aqui e isso fica evidente na cena em que ele encontra sua filha e não sabe muito bem como reagir. “Ela tem nove anos?” Os confrontos entre Joey e Eddie são excelentes, graças as óbvias diferenças entre os personagens. Em meio a tanta insanidade, o personagem interpretado por John Travolta se entrega, tendo como ápice o momento em que ele pede para sua filha calar a boca e beber sua cerveja. É absurdamente engraçado e só funciona porque o roteiro é bem construído. O filme tem seus pequenos deslizes, a primeira parte é infinitamente mais efetiva, no entanto, o único problema sério é o desfecho, no qual o diretor Nick Cassavetes opta por algo que varia entre o cômico e o dramático, conseguindo apenas ser constrangedor. Sua direção não é lá memorável, contudo, é possível enxergar algumas qualidades, como na cena em que Maureen é estuprada e sua câmera mexe de forma mais atordoada.
A verdade é que o show é inteiramente dos atores. John Travolta aparece pouco, mas está ótimo como um homem comum entre dois insanos. A grande qualidade na interpretação de Robin Wright é ressaltar uma paixão pelo protagonista de uma maneira que somente Maureen poderia expressar. Seu trabalho corporal é maravilhoso, ela está sempre atordoada, não consegue ficar longe de Eddie e, quando está perto, fica em dúvida do que é o certo a se fazer. Sua personagem é uma verdadeira bomba relógio que se contradiz sem perceber. Por outro lado, na segunda parte, Wright segue muito bem o arco de Maureen e aparece igualmente perturbada, mas introvertida.
Sean Penn oferece uma performance a ser estudada, sem dúvida alguma uma das melhores da década de noventa. Existem atores que criam uma persona e a seguem rigidamente. Esse não é o caso de Penn, que mergulha de cabeça em seus personagens, trazendo à tona o melhor que eles têm a oferecer. O ator vai perfeitamente do “maluco divertido e tranquilo” para alguém perigoso e impulsivo, através de mudanças muito delicadas na entonação, na corporalidade e na velocidade de seus gestos. Penn ainda consegue nos fazer rir em diversas situações, como naquela em que Eddie vai ao barbeiro. Sua versatilidade é impressionante. Em um filme tão caótico, talvez seu momento mais marcante seja o que chora em silêncio na prisão ou quando tenta convencer uma funcionária do manicômio de que está curado.
Sean Penn foi merecidamente premiado em Cannes. A sua atuação justifica por si assistirmos a “She’s So Lovely”, um romance sobre seres desregulados que precisam ficar juntos a qualquer custo.

