Basil Brown é um arqueólogo. Ele é contratado por Edith Pretty para escavar suas terras e conferir se há algo de relevante por ali.
“The Dig” não é bem um filme de trama, a maioria dos acontecimentos não despertam grande interesse no espectador e a montagem também não ajuda, sendo excessivamente abrupta e invasiva. O principal acerto do diretor foi optar por uma narrativa contemplativa, que admira as belíssimas paisagens naturais e extrai as principais características dos personagens através de sutilezas. Não há nada muito entusiasmante em “The Dig”, não à toa, as sequências mais marcantes são as que os personagens caminham ao som da excelente trilha sonora.
O diretor Simon Stone sabe a hora de tornar uma cena mais íntima, expondo as fragilidades dos personagens e quando precisa dar um passo para trás e focar na paisagem. A fotografia sugere instabilidades e dias melhores. O cinza e a neblina estão tão presentes quanto o sol e essa combinação é importante para manter um equilíbrio no tom.
Stone permite que percebamos o que move e aflige os personagens de uma forma instigante, mantendo o interesse do espectador no filme, mesmo que a trama seja um tanto enfadonha. Edith é uma mulher solitária. Ela tem o pressentimento de que algo relevante está debaixo de suas terras. Talvez esteja atrás apenas de companhia. A protagonista convida Basil para jantar, se arruma, sorri e disfarça a decepção quando o arqueólogo desmarca o compromisso. Edith tem sérios problemas de saúde, mas não os torna públicos. Carey Mulligan consegue ser, simultaneamente, forte – mantendo sua posição de liderança e de mãe carinhosa – e frágil – a partir de trejeitos, da forma de caminhar e do comportamento quando está sozinha. Edith precisa segurar as pontas, suas feições escondem sentimentos e a atriz está sensacional no papel.
O mesmo pode ser dito de Ralph Fiennes, que transforma Basil Brown em um homem meticuloso, direto e carinhoso. A princípio, ele parece rígido e intransponível, no entanto, quanto mais o conhecemos, mais percebemos que há certas coisas que mexem com o seu coração. Ele não teve acesso a uma grande educação na infância. Escavar não é uma profissão, é a sua maior paixão, o que torna sua vida importante e o coloca em contato com seus antepassados. Basil é humilde, respeita sua chefe e, gradativamente, passa a admirá-la. Ele trata Robert, filho de Edith, com muito carinho e presta genuinamente atenção no que o garoto tem a dizer. Quando a protagonista lhe pergunta sobre filhos, percebemos pela reação do escavador que o assunto é delicado. Em nenhum momento criamos expectativas de que os personagens ficarão juntos, até porque, Basil é casado. Contudo, é interessante perceber o crescente afeto que um nutre pelo outro.
Ainda temos Peggy, uma jovem arqueóloga que acompanha o marido na escavação. Seu desejo de se envolver profundamente com o seu parceiro é notável e claramente não é recíproco. Conseguimos sentir quando ela começa a perder as esperanças e abraça a melancolia. Lily James deixa nítida a tristeza da personagem e a mantém escondida, visível apenas para o espectador. O roteiro não deixa de abordar temas como: preconceito quanto ao lugar da mulher na sociedade – vista com certa inferioridade em relação ao homem – e quanto a opção sexual. O marido de Peggy é homossexual, o que notamos através de sutilezas muito bem conduzidas pelo ator Ben Chaplin.
O filme tem como pano de fundo o início da Segunda Guerra Mundial, mas, sinceramente, tirando o belo trabalho de fotografia, mal percebemos a tensão no ar.
“The Dig” tem qualidades inquestionáveis, entretanto, não é uma obra marcante.
