Edward Bloom está prestes a morrer. Ele é famoso pelas histórias fascinantes sobre si, que fazem os seus olhos brilharem enquanto as descreve. Seu filho, Will, não as entende, se decepciona e o reencontra com a intenção de tentar conhecê-lo melhor.
O protagonista é uma figura interessantíssima, que narra sua trajetória de maneira vivaz e apaixonada, valorizando os mínimos detalhes. A fantasia está por todos os lados, Edward se depara com criaturas bizarras e descreve situações dignas de heróis e filmes de terror. O mais belo, na minha opinião, é o cuidado de Burton em manter as histórias no âmbito do encantamento, afinal de contas, o que Will não percebe é que relatos “reais” não seriam honestos. Mentirosos ou verdadeiros, os contos do protagonista dizem muito sobre a sua personalidade. Talvez o tempo não tenha literalmente parado quando ele encontrou o amor de sua vida, porém esse momento enfatiza o seu sentimento por Sandra de forma espetacular; é provável que Edward não tenha pescado o maior peixe do mundo antes do nascimento de Will, contudo, essa é sua maneira de demonstrar seu carinho profundo pelo filho; o pântano em Ashton pode não existir, mas é um obstáculo que salienta a sua força de vontade e o desejo de ser alguém.
É fácil olhar para as histórias do protagonista e não as levar a sério, o difícil é compreender o significado delas. O tom fabulesco é fundamental para a valorização do passado de Edward e para reforçar a tristeza de seu presente. A fantasia sempre foi uma marca na filmografia de Tim Burton e é uma pena que ele confira uma inadequada veracidade ao ato final. Encontrar o “verdadeiro” Edward é uma grande besteira, já que sua essência estava em suas histórias e não em possíveis fatos. A personagem de Helena Bonham Carter, por exemplo, não apresenta nenhuma novidade e sua presença torna a trama um pouco enfadonha. Por outro lado, o último momento entre pai e filho é belíssimo e fundamental para o arco de Will.
Não interessa se o que ouvimos de fato aconteceu, a beleza não está aí e Burton, com o desfecho atribuído, perdeu a oportunidade de realizar um filme impecável.
Ewan McGregor faz de Edward um jovem charmoso e inteligente, cuja autoestima impressiona. A alegria está em seu rosto, conseguimos pressentir seu futuro, pois sua determinação e sua força de vontade são contagiantes. Ele é gentil, cheio de energia e não mede esforços para encontrar seu amor.
Em contrapartida, Albert Finney apresenta o lado mais dolorido do protagonista. Edward sabe da proximidade de seu fim, se entristece por não conseguir se levantar da cama, observa sua esposa e conta suas histórias.
Billy Crudup dá vida a um personagem cuja insatisfação é compreensível. Seu pai pode ter sido um pouco egoísta, no entanto, é impossível simpatizar totalmente por Will, pois, diferente dele, entendemos que por trás de “contos infantis”, existe uma gama enorme de sentimentos e um testamento sobre a personalidade de um homem.
A fotografia é essencial para a diferenciação entre os espaços temporais. Se o passado é movido por cores vibrantes, o presente é cinzento. As sequências de “horror” também são bem caracterizadas, entretanto, o mais marcante é a forte iluminação no rosto de Sandra, que deixa nítida a paixão de Edward por ela.
Nesse sentido, o design de produção também é essencial, tanto pelo contraste entre as cores, quanto pela presença de objetos específicos – as fotos na parede, indubitavelmente, denotam um carinho distante entre pai e filho. E o que falar das flores na varanda de Sandra? Provavelmente o momento mais bonito do filme. Os ambientes remetem aos outros trabalhos do diretor, cada um tem a sua singularidade.
A montagem é cuidadosa ao estabelecer rimas visuais entre o passado e o presente.
O grande mérito do roteiro é desenvolver histórias cativantes. Todos os personagens/criaturas são interessantes e acrescentam algo à trama.
Burton apresenta bastante sensibilidade para conduzir certas cenas e um excelente timing para o horror, como no plano subjetivo em que introduz o gigante.
‘’Big Fish” não é o seu melhor filme, mas não deixa de ser excelente.

