Ellie Andrews é uma jovem mimada, que foge do pai para se casar com King Westley. No caminho, ela conhece Peter Warne, um jornalista respondão e recém-demitido, que estava atrás de uma grande história.
“It Happened One Night” revolucionou a comédia romântica. Todas as que vieram depois tem alguma semelhança, seja na estrutura ou na caracterização dos protagonistas. Assim como seus filmes, Frank Capra era um diretor generoso, que evitava planos e enquadramentos mirabolantes, a fim de conferir uma fluidez maior à trama e dar mais espaço aos atores.
O roteiro é fantástico. Os diálogos são deliciosos, repletos de sarcasmo e alfinetadas.
Os personagens são surpreendentemente ricos. Ambos são apresentados com características bem marcantes e, aos poucos, percebemos algo a mais.
Clark Gable tem carisma de sobra. Ele faz de Peter um sujeito espertinho, debochado e incapaz de demonstrar fragilidades. Suas respostas são engenhosas e seus olhares denotam uma superioridade que casa perfeitamente com as reações de Ellie. Contudo, o que mais chamou minha atenção, foram os pequenos gestos, que mesmo encobertos por uma voz rígida, deixam nítido o seu carinho pela protagonista. Ele elogia a sua beleza e seu cabelo; prepara o café da manhã; a cobre com seu cachecol e empresta seu casaco.
Ellie vive em um pedestal. Seus problemas sempre foram solucionados com dinheiro. Ela é fútil, orgulhosa (assim como Peter) e mesquinha. A desconstrução da personagem só é eficiente, graças a grande interpretação de Claudette Colbert. As expressões faciais são fundamentais. A secura do início dá lugar a sentimentos puros e contagiantes. Ellie percebe o carinho de Peter e chora. Seu sorriso só aumenta, até o momento em que a aventura termina e as lágrimas de desespero caem com uma naturalidade tocante.
Em cena, os atores possuem uma química raríssima.
Na trama, Peter vê em Ellie a chance de obter uma boa manchete, então propõe um acordo: levá-la até King Westley, enquanto escreve a história no caminho. Com personalidades fortes e distintas, os dois se desentendem diversas vezes. Mas a jornada é longa e eles acabam se apaixonando. Próximo do fim, Peter não dá a mínima importância para a matéria e Ellie nem se lembra do futuro marido. Essa transformação é gradativa e é tão especial, graças aos diálogos afiados, as grandes performances e a uma quantidade significativa de cenas memoráveis.
A mais famosa, de forma justa, é a da carona. Peter utiliza toda a sua esperteza para chamar atenção dos motoristas, mas é completamente ignorado. O timing de Gable aqui é fantástico, seu desespero é engraçadíssimo. E claro, o desfecho em que Ellie mostra que o polegar não é a parte certa do corpo para se exibir é sensacional.
Também adoro a cena da cantoria no ônibus. Além de ser um momento doce e belo, representa uma mudança na dinâmica entre os protagonistas.
No entanto, a mais genial e importante é a que Peter introduz a muralha de Jericó – principalmente a segunda. Os planos fechados ratificam a agonia de Ellie, que percebe o quão apaixonada está e a dificuldade que Peter tem em deixar sua persona rígida. Simbolicamente, ela é fundamental para o desenvolvimento da trama. O lençol divide o quarto em dois, isso é óbvio, mas a muralha é frágil e está prestes a cair. Os personagens sabem o que sentem, porém são orgulhosos demais para admitirem. Quando Ellie se declara, Peter se protege e a muralha segue de pé. Mais do que uma barreira física, ela representa os maiores receios dos protagonistas, que se abrem apenas no final. Momento este, que coincide com a queda da muralha.
“It Happened One Night” é um filme doce, otimista e belo. Uma obra prima que será plagiada eternamente.

