Jogando as Fichas Fora (1994)
Pouco se fala dos trabalhos de William Friedkin na década de 90, mas “Blue Chips” merece uma atenção especial. Existe uma fórmula para os filmes de esporte, dotados de sentimentalismo, superação e carisma. Na maioria das vezes, há pouco a se aprender sobre o esporte em questão – o foco costuma ser a história e a dinâmica entre os personagens. “Blue Chips”, em parte, situa-se nessa lógica; todavia, também apresenta um raro nível de imersão e paixão pelo basquete, o que, claro, tem a ver com a abordagem do diretor.
Friedkin nos coloca no cerne das partidas, investindo nas nuances do esporte. As paradas técnicas operam num registro quase documental e ele demonstra um fascínio especial pelas discussões entre técnicos e árbitros. Para quem conhece basquete, “Blue Chips” funciona como uma experiência autêntica e honesta, sem truques. Vemos as preleções, a análise de jogos anteriores, as coletivas de imprensa, os treinos, as interações no vestiário… há uma considerável preocupação em inserir o espectador naquele universo. O filme começa com uma preleção eletrizante: “Vocês são o time mais imbecil que eu já treinei”. Pete é um icônico treinador do basquete universitário e tem sofrido maus bocados na atual temporada. Seus jogadores dão tudo de si, mas são tecnicamente limitados. Outra coisa que “Blue Chips” faz muito bem é dimensionar a relevância do esporte universitário nos Estados Unidos. O estádio é enorme e a mídia pressiona por resultados como na NBA. Pete pode até explodir no vestiário, mas, ao final do jogo, independentemente do resultado, motiva e abraça seus jogadores. Em casa, ele repensa sobre uma ação raivosa que tomou durante uma partida: “Espero não ter acertado ninguém”.
Pete é, acima de tudo, um apaixonado por basquete. Aquilo é a sua vida; não à toa, atrapalhou seu casamento com Jenny, que, apesar do divórcio, continua sendo sua fiel escudeira nos momentos mais difíceis. O roteiro entra a fundo em questões delicadas, como, por exemplo, a necessidade de os atletas manterem uma boa média acadêmica. Pete não é só o técnico, mas uma figura paterna para todos ali, preocupado com a formação e o amadurecimento de cada um. Pressionado pelos maus resultados, o protagonista viaja pelos Estados Unidos atrás de jovens talentos. Aí entra outra questão: Pete precisa dominar uma retórica convidativa, que atraia não só os atletas, mas suas famílias. De uma ponta a outra do país, ele se vê diante de culturas, necessidades e geografias completamente diferentes. Os jovens prodígios são nada mais nada menos que Shaquille O’Neal, Penny Hardaway e Matt Nover, que teve uma carreira menos destacada – aqui, interpretam, respectivamente, Neon, Butch e Ricky. O recrutamento universitário, devido à alta procura, deixou de ser sobre paixão e futuro, passando a ser um negócio clandestino. Não é permitido aliciar jogadores, mas é o que fazem na surdina, com rastros invisíveis. Pete tem uma decisão a tomar: trair seus princípios e convicções ou continuar perdendo com dignidade?
Friedkin abusa de close-ups, colocando o protagonista contra a parede e ressaltando seus olhos azuis, da mesma cor do time. Há, também, um uso pontual de ângulos holandeses, reforçando quão mal ele se sente por estar trapaceando. Os jogos, além de muito bem conduzidos por Friedkin, apoiado por uma montagem de ritmo intenso e que contempla todas as vertentes do esporte, contam com atletas de altíssimo nível. Não existe aquela sensação de estar assistindo a uma farsa; Shaquille O’Neal não brinca em serviço. Na partida final, contra Indiana, a rivalidade começa pelo contraste entre as cores: azul e vermelho. O técnico adversário é vivido por Bobby Knight, apelidado de “o General”, uma lenda do basquete universitário. O roteiro não termina na famosa nota feliz, em que tudo dá certo. Há, sim, um grande desfecho, que parte da coragem de Pete em dizer a verdade e extravasar sobre seus sentimentos na coletiva de imprensa. É sobre a paixão pelo jogo, não sobre o dinheiro.
Nick Nolte oferece uma performance estupenda, combinando sua intensidade física e dramática com uma vulnerabilidade emocional. Nolte traz tensão, raiva, desgosto, carisma e empatia à tela. Ele se rasga pelo papel, sendo o coração e o frenesi de um dos filmes mais subestimados da carreira do mestre William Friedkin.




