Q & A – Sem Lei, Sem Justiça (1990)
Sidney Lumet é uma das grandes lendas do cinema hollywoodiano. “12 Angry Men”, “Dog Day Afternoon”, “Network” e “Serpico” costumam ser os filmes pelos quais ele é lembrado, mas sua carreira é tão vasta que as pessoas se esquecem de algumas preciosidades. “Q & A” é, para mim, ao lado de “Prince of the City”, a grande obra prima de Lumet.
O filme começa em um beco escuro. Mike Brennan, um policial condecorado, mata um traficante porto-riquenho, forjando uma cena de autodefesa. Kevin Quinn, chefe do departamento, encarrega Al Reilly, um jovem procurador distrital e ex-policial, para investigar o caso. Todos agem como se aquilo não passasse de uma mera burocracia, mas sabemos que Brennan assassinou o traficante por algum motivo pessoal. No corredor, enquanto conta histórias entusiasmadas, ele fica no centro do quadro – Reilly surge ao fundo, como a sombra que está prestes a revelar a verdade. É um momento corriqueiro, mas que diz muito sobre o carisma e a imponência de Brennan e o papel que o procurador terá na narrativa. Reilly é um idealista, um jovem que fica feliz por se dedicar ao trabalho e que nunca nega sua bússola moral. Leo Bloomenfeld, seu mentor, não é cínico por natureza, mas por entender os meandros de seu ofício. Ele sabe que há algo estranho nesse caso e tira o protagonista da zona de conforto. Em duas ocasiões, Lumet enquadra os dois atrás de grades, ressaltando o fato daqueles homens honestos estarem presos a um sistema corrupto e brutal. Em sua investigação, Reilly chega a Bobby Texador, outro criminoso porto-riquenho, que está noivo de Nancy Bosch, sua antiga namorada. De repente, o caso se torna extremamente pessoal para o procurador, que deixa o “bom mocismo” de lado, passando a agir com firmeza e rigidez. Quando Nancy entra na sala para prestar depoimento, Lumet corta para um close-up de Reilly – é o sinal de que seu coração ainda está ferido. O protagonista circula pelo ambiente, coloca cada um em seu devido lugar, mas Texador, astuto, sabe o porquê daquele empenho.
Brennan, ao perceber que não terá vida fácil, começa a agir, mexendo seus pauzinhos nas ruas. Talvez outras cabeças precisem rolar. Nick Nolte é quem confere a verdadeira dimensão do perigo. Brennan não é apenas sujo; ele é um monstro, uma figura amedrontadora, cujo tamanho do bigode é proporcional à sua maldade. Nolte é alto e tem um rosto expressivo. Lumet usa isso a seu favor, filmando-o de perto, como se dominasse todos que o questionam ou que tentam dialogar. O roteiro, além de estabelecer uma trama detetivesca do mais alto nível, apresenta uma teia que se destaca por questões raciais e de gênero. Brennan executou o traficante para não ser exposto. Ele faz parte de uma rede de crimes, movimentada por porto-riquenhos, italianos e até travestis. São diferentes culturas e meios de se expressar; quem vacilar, será morto. No topo da cadeia, está aquele que acoberta o tráfico e ganha uma grande quantia. Há uma hierarquia no sistema; Brennan fala com a máfia, não com os latinos. Dentro dessa questão racial e étnica, existe um outro ponto vital da narrativa: Nancy abandonou Reilly e se entregou ao crime pela forma como ele reagiu ao descobrir que seu pai era negro. Reilly não se lembra do olhar que fez, porém sabe que ficou surpreso. O motivo por trabalhar tanto é o fato de não conseguir esquecê-la. Sua casa, impessoal e sem mobílias, é uma extensão de suas feridas emocionais. O protagonista tinha planos para o futuro.
Texador, que era amigo do traficante assassinado, pretende entregar Brennan. No fim das contas, para Reilly, proteger Texador significa proteger Nancy. O policial segue sua trilha de sangue, cada vez mais feroz, eliminando todos que podem incriminá-lo. Aos poucos, o protagonista descobre que não pode confiar nem em Quinn, que almeja cargos públicos e está tão envolvido na sujeira quanto Brennan. A mesa é comprida; em uma ponta, o símbolo máximo de corrupção e violência; do outro, um dos poucos resquícios de honestidade e caráter. O que sobra para Reilly? Um rosto machucado e a certeza de que certos vespeiros são grandes demais para serem remexidos. A única saída, adotada há tempos por Bloomenfeld, é a resignação. Seu arco é sobre desilusão, aprender a conviver com cicatrizes e traumas. Na vida real, o vilão vence.
Nick Nolte é uma força da natureza, mas o elenco não se resume a ele. Timothy Hutton oferece uma performance repleta de nuances, indo do idealismo ao vazio absoluto, com toques de melancolia e força policial. Armand Assante é outro que se destaca, tirando Texador do lugar de traficante genérico. Assante compõe um personagem que, acima de tudo, deseja fugir daquele meio e garantir um futuro melhor para sua amada.
“Q & A” é uma das grandes obras primas da década de 90.




