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De Olhos Bem Fechados (1999)

O ser humano é, por natureza, uma criatura paradoxal. Ele precisa ser ético, mas não pode ignorar sua libido; ele deve ser leal, mas nem sempre é capaz de frear seus instintos primitivos. Amor e sexo se situam na mesma esfera? Somos uma bagunça, hipócritas desde o nascimento e vulneráveis quando não há ninguém por perto. O casamento é, antes de qualquer coisa, um contrato. De imediato, Kubrick nos insere no convívio íntimo do casal. Vemos Alice sentada no vaso, Bill procurando a carteira que está no lugar mais óbvio possível e elogios mecânicos, proferidos sem que eles se olhem. A noção de cotidiano é muito bem estabelecida, assim como a imagem do casal perfeito, ensaiada e projetada para a sociedade. 

Na festa, a alta classe se apresenta a um desfile de máscaras. Os ternos, os vestidos, a dança padronizada, a luz dourada, os diálogos banais… aquela é uma ocasião de reafirmação social. Os flertes trazem à tona o outro lado humano – um que não pode ser exposto em público. Em seu quarto, Victor, o anfitrião, esconde uma prostituta que sofreu uma overdose. Kubrick é preciso ao pontuar a rotina do casal, dando indícios do que está prestes a acontecer. Bill passa o dia no consultório médico, atendendo as mais diversas pessoas; Alice, presa aos serviços domésticos, cuida da filha, assumindo o tédio como única verdade absoluta. Nua, enquanto beija Bill, ela olha para o espelho, tentando entender seu casamento. Repentinamente, o casal perfeito desmorona. Após fumar um baseado, Alice questiona o marido e admite ter fantasias sexuais com outros homens, incluindo um marinheiro da última viagem que fizeram. Para Bill, imerso na imagem de perfeição, aquilo é um baque. Somos voláteis e incertos; uma noite de prazer pode soar mais interessante do que uma vida estável. Bill nunca havia pensado nisso. Acostumado a diagnósticos científicos, ele parece ter se esquecido dos fundamentos filosóficos que tornam o ser humano complexo. Em um misto de insegurança, dúvida e medo de não estar vivendo ao máximo, o protagonista inicia uma intrigante jornada noturna. 

Kubrick é um perfeccionista. Sua mise en scène sempre merece uma atenção especial. Aqui, ele estabelece dois símbolos contrastantes e que sintetizam o filme. O azul e o vermelho percorrem a narrativa inteira, seja nos apartamentos, seja em letreiros, seja em outros estabelecimentos. O azul está associado à frieza emocional, ao cotidiano, à convivência em sociedade e ao que podemos chamar de “vida real”. O vermelho, em contrapartida, simboliza o tesão, o desejo carnal e a falta de pudor. Ambas as cores pintam o universo em que vivemos e Kubrick, em sua encenação, sugere que, para chegarmos a algum tipo de completude, há de haver um equilíbrio. Na casa de Marion, filha de um paciente que acabou de morrer, o azul que vem da janela se sobressai, ressaltando sua infelicidade e compromisso com um relacionamento fadado ao fracasso. Kubrick a enquadra por meio de close ups e Bill, por planos médios, fomentando uma distância emocional. Quando ela se declara para o médico, o vermelho não aparece, pois não existe desejo, apenas sofrimento. Já a porta de Domino, uma prostituta, é vermelha; afinal, ali é o antro da entrega do sexo rápido e intenso. Outro detalhe fascinante é que, em sua primeira investida carnal, Bill opta por uma casa decadente – ele abandona o posto de homem da alta classe. A ocupação de médico é um passe livre, um atestado de confiança. Quando visita Nick Nightingale, no bar de jazz, ele precisa “descer” as escadas, chegando ao subsolo. O antigo amigo não está no seu patamar; a sociedade o enxerga com desprezo. Um pianista não tem o mesmo valor de um médico – o desenrolar da trama confirma esse ponto. 

Nas ruas, o azul e o vermelho são divididos em proporções similares, retratando o equilíbrio ao qual a sociedade deve aderir; todavia, em outros ambientes, uma das cores é mais predominante. No apartamento do casal, por exemplo, o equilíbrio é notável, tratando-se de uma ilusão, já que, aos poucos, quanto mais a verdade emerge, o azul ganha contornos intoxicantes. Na mansão, onde acontece a icônica sequência do baile, o portão é azul, mas o carro que leva os convidados ao local é vermelho. Lá dentro, os corpos ficam desnudos e os rostos cobertos – o contraste com a festa inicial é perfeito, até irônico. Aquela é a seita em que tudo que não é moralmente aceito é praticado; todas as fantasias, os desejos… enfim, um lugar de possibilidades infinitas. Kubrick passeia com a câmera como se nos convidasse ao baile, criando uma atmosfera tensa e hipnótica – a trilha sonora é um show à parte, um tema sombrio. Obviamente, o vermelho é a cor predominante, além do dourado, que dialoga com a estatura social dos convidados. O único vestígio de azul surge quando uma moça misteriosa alerta Bill, acordando-o para a realidade. A aventura noturna revela apenas uma coisa ao protagonista: todos escondem desejos sexuais; alguns em sonhos e pensamentos secretos, outros em seitas mascaradas. O protagonista fica mais confuso. O caráter estável e confortável de seu casamento desaba e ele não consegue esquecer o que viu. 

O dia seguinte o leva a uma investigação particular. A cada passo, um aviso de que é melhor parar e retornar para casa. O auge das “ameaças” ocorre numa sequência em que Bill é perseguido. Adivinhem ao lado de que o tal sujeito para? De uma placa escrita “Stop”. Kubrick era realmente um gênio maluco – esse é o seu nível de sutileza. O suspense é elevado pelo piano da trilha sonora, tão alarmante quanto o disparo de uma arma. “Aquelas não eram pessoas comuns”, diz Victor, que estava na seita. Bill tem acesso aos extremos da natureza humana e precisa tomar uma decisão. Ele vai ao submundo da alta sociedade novaiorquina para perceber que deve recalcular rotas e ter uma conversa importante com Alice – Kubrick sempre teve um bom senso de humor. E a última fala? Simplesmente genial, capaz de desarmar o espectador. Tom Cruise oferece uma performance arrebatadora, calcada no choque causado pela revelação da esposa. Em silêncio, ele remói o que foi dito e reavalia sua existência. Kubrick, invariavelmente, fecha o quadro em seu rosto, destacando o tamanho de sua insegurança. Nicole Kidman combina brilhantemente as diferentes facetas humanas, demonstrando, através de seu jogo corporal e de certas palavras, uma voracidade sexual, ao mesmo tempo em que assume as obrigações cotidianas com muita naturalidade.

“De Olhos Bem Fechados” é uma obra prima colossal. Um filme misterioso, que desbrava caminhos perigosos para chegar à verdade sobre nós, seres humanos.

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