Skip to main content

Jerry Maguire: A Grande Virada (1996)

“Eu odiava o lugar que ocupava no mundo”. Jerry Maguire está prestes a tomar uma atitude importante. Corroído pelo meio que habita e pela pessoa que se tornou, ele escreve uma declaração que irá mudar o rumo de sua vida. Os agentes esportivos são mestres da retórica, passando confiança para seus atletas, vistos, no fundo, como mercadorias de alto valor. Se alguém se lesiona, o que fica em primeiro lugar: a saúde ou o bônus que deve ser atingido no contrato? Jerry virou esse sujeito e quer reencontrar a melhor versão de si. Menos clientes, mais atenção – esse é o seu novo lema. 

Na empresa em que trabalha, todos dizem amá-lo. Um amor industrial e oportunista, advindo de seres gananciosos, imersos em uma lógica de mercado. Os aplausos são falsos; assim que surge a oportunidade, Jerry é demitido. A disputa por clientes é retratada por Cameron Crowe e pela montagem de forma frenética e exaustiva. O agente que trabalha com mais jogadores é aquele que não está nem aí para nenhum deles. Jerry, por mais dúvidas e temores que tenha, quer apresentar um novo modelo de trabalho. Seu único cliente passa a ser o temperamental Rod Tidwell. A única funcionária da empresa que decide acompanhar o protagonista é Dorothy Boyd, uma mãe solteira com problemas financeiros. O ponto de partida definitivo para um recomeço é o término do noivado com Avery. Agora, Jerry está cercado por pessoas (poucas, é verdade) que o amam e o admiram por seu caráter e ideias, não pela posição que ocupa. Esse talvez seja o personagem mais simpático que Tom Cruise já interpretou. Não por ele ser uma pessoa imune a erros, pelo contrário. Jerry Maguire é um homem falho, incapaz de dividir intimidades com suas companheiras e de expressar sentimentos profundos. As mulheres de sua vida ocupam um vazio superficial: o medo de ficar sozinho. Jerry vê o casamento como um dos contratos que assina. A lealdade é fundamental, mas só significa algo se existe companheirismo, empatia e paixão. O que o torna tão querido e humano é a vontade genuína de mudar, por mais difícil que isso seja. 

Dorothy não é sua funcionária, mas a porta para a afloração de sua sensibilidade. Ela é doce e confusa; mantém os pés no chão ao mesmo tempo em que sonha com grandes romances e príncipes. Diferentemente das mulheres com quem Jerry esteve junto, Dorothy é passional sobre o que fala e sente. Sua casa é aconchegante e modesta, o lugar perfeito para recalcular rotas. Ray, seu filho, é uma das criaturas mais fofas e carismáticas da história do cinema. Jerry adentra um ambiente familiar, onde tem a oportunidade de ser pai e marido. Não há glamour, apenas a certeza de que aquilo é real. A cena em que Ray abraça o protagonista, enquanto a canção “Secret Garden”, de Bruce Springsteen, sobe, é lindíssima. O filme é sobre esses momentos; sobre a noção de uma vida simples, feliz e honesta. O roteiro é justo com Jerry, respeitando sua dificuldade de lidar com relacionamentos, confundidos com árduos compromissos. Ao lado de Dorothy, nem tudo é fácil. Jerry precisa encontrar a peça que falta em seu coração. 

Rod, assim como Dorothy, não é somente um cliente, mas um amigo íntimo, quase um irmão. A cada negociação salarial e discussão, enxergamos uma relação poderosa. Eles brigam e reagem a certas atitudes, porque se importam. Jerry precisa do dinheiro, porém, acima disso, existe a vontade de proporcionar uma alegria a Rod e à sua família. Rod e Marcee, sua esposa, servem de aprendizado para Jerry. A felicidade do casal só está completa quando eles estão juntos. Por que é tão difícil ser afetuoso? Rod tem coisas a dizer sobre relacionamentos; Jerry é firme ao lembrá-lo de que o futebol americano deve ser jogado com o coração, não com raiva e inveja. O dinheiro aparece quando paz de espírito e talento entram em harmonia. Um carrega o outro para cima, elevando a burocracia esportiva a um patamar fraternal. Em várias situações, Crowe filma o rosto de Jerry como símbolo de constrangimento e vergonha; no fim, o close up traz à tona o amor de um homem sincero – seu arco é um sucesso. 

Renée Zellweger cumpre perfeitamente seu papel, combinando maturidade e pureza. Cuba Gooding Jr. é um poço de carisma e está excelente como o jogador temperamental que veste a camisa de estrela do esporte. Há um aspecto performático na forma como esses atletas se portam e Gooding Jr. o capta com naturalidade, conferindo humor e verdade à narrativa. Dito isso, eu não consigo concordar com sua vitória no Oscar – o trabalho de Edward Norton, em “As Duas Faces de um Crime”, é um dos mais assombrosos da década de 90. Quem deveria ter subido ao palco naquela temporada de premiação era Tom Cruise, que oferece uma performance completa. Ele reafirma as qualidades que já conhecíamos e prova ser ainda mais talentoso. Jerry é charmoso, vulnerável, simpático e confuso. As pequenas expressões em seu rosto são tão reveladoras quanto as icônicas cenas. Cruise constrói um personagem paradoxal: comunicativo e introspectivo. A vitória de Geoffrey Rush, por “Shine”, é uma das mais amargas concedidas pela Academia.

“Vivemos num mundo cínico”, diz o protagonista. Tão cínico que poucos têm a coragem de afirmar o óbvio: “Jerry Maguire” é uma obra prima.

O que você achou deste conteúdo?

Média da classificação / 5. Número de votos:

Nenhum voto até agora. Seja o primeiro a avaliar!