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Digger (2026)

O burburinho em torno de “Digger” tem nome e sobrenome: Tom Cruise

O elenco é repleto de nomes importantes e a dupla Iñarritu/Lubezki é expressiva; no entanto, nada se compara ao apelo que Cruise gera. Ele não é o tipo de ator que se submete a qualquer papel. Após ter se tornado o grande ícone do cinema de ação contemporâneo, sua opção por trabalhar com um diretor do calibre de Iñarritu, bastante prestigiado pela Academia, chamou a atenção. O marketing, as entrevistas, os trailers… tudo foi minuciosamente preparado. “Digger” talvez não seja o melhor filme do ano, mas é, sem dúvida alguma, o mais ambicioso em termos de tom, estrutura e escolhas temáticas. 

Digger Rockwell é um magnata da indústria do petróleo. A exploração do gélido solo da Groenlândia por parte de sua empresa, que conta com o apoio do governo americano, chegou a um nível catastrófico, que levará o mundo a um rápido processo de destruição. Isso sem falar na estratosférica plataforma de gelo que se formou e está a caminho da Europa. A direção de arte é precisa ao retratar Digger como uma figura megalomaníaca e excêntrica – sua mansão é um misto de museu e zoológico. A bota característica, o chapéu e o sotaque são os toques que definem o arquétipo do caubói. Claro, tudo funciona dentro de uma lógica satírica, na qual o exagero impera e serve para alertar para perigos que, apesar de soarem absurdos, são reais. Digger é um sociopata, um bilionário que perdeu a noção da realidade. Suas amostras de carinho direcionadas à sua gata são, na verdade, um surto de um homem que acredita ser Deus; afinal, a pobre coitada já deveria ter falecido há mais de um século e é mantida viva num estado cadavérico. Ao ser informado por Ganesh, o biólogo responsável pelas previsões catastróficas, o protagonista demonstra uma preocupação maior com o dinheiro perdido do que com seus funcionários mortos na Groenlândia. As dinâmicas entre os personagens funcionam em diferentes camadas: a manutenção do timing cômico dialoga com o alerta colocado por Iñarritu. 

De um ponto de vista estético, “Digger” remete aos filmes do sueco Roy Andersson. Os cenários, a forte maquiagem e a fotografia elaboram um universo opaco, sem perspectiva, servindo à ideia farsesca e absurda idealizada pelo cineasta mexicano. Na cena em que o governo se reúne com Digger, percebemos que algumas apostas estão sendo feitas. Não é apenas a entonação dos atores, que interpretam caricaturas, o design de som, que realça o som das cadeiras virando para gerar uma tensão cômica, e a decupagem, que vai de um plano aberto da mesa comprida para planos que geram embates entre os membros do governo; Iñarritu também aposta em piadas verbais, tornando sua sátira cada vez mais latente. A sensação é de que as coisas estão saindo do eixo, até que Iñarritu, sem pedir licença, puxa o tapete e promove uma grande reviravolta.

ACONSELHO A CONTINUAR APENAS QUEM JÁ ASSISTIU AO FILME.

“Digger” é um filme de proporções caóticas, que mira alto e acerta a grande maioria de seus alvos.

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