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Hirokazu Kore-eda (2026)

Após a má recepção de “Sheep in the Box”, no Festival de Cannes, era de se esperar que o aclamado diretor japonês Hirokazu Kore-Eda apresentasse algo interessante em Veneza. “Look Back”, adaptação do mangá de Tatsuki Fujimoto, é de um lirismo inenarrável. Na trama, Fujino é uma jovem conhecida na escola por produzir mangás exuberantes. Ao se deparar com os desenhos de Kyomoto, uma aluna que nunca vai às aulas, ela fica com inveja, sentindo-se obrigada a superar sua “rival”. 

Fujino se debruça sobre os mais diversos livros e aprimora sua técnica, desconectando-se da vida social e familiar. Kore-Eda estabelece um padrão visual, enquadrando a protagonista de costas, como se estivesse em contato somente com o seu mundo interno. Eis que, um dia, seu professor pede para que ela entregue um diploma a Kyomoto, que vive isolada. Chegando lá, Fujino é surpreendida pela colega, que declara ser fã de seus mangás. Esse primeiro contato entre as duas sintetiza o tom da obra, fisgando o espectador de imediato. O que se encaminhava para ser uma relação de tensão e disputa transforma-se numa amizade tocante, movida pelo fazer artístico. O trabalho de direção de arte é impecável ao retratar Kyomoto como uma criança solitária, incapaz de interagir com o meio ao redor. Sua casa é fria, impressionando pela pilha de livros e cadernos ainda maior do que a de Fujino. Kore-Eda filma o processo criativo com um raro intimismo, explorando as nuances daquela bela relação – diálogos não são necessários para gerar aproximação. O cineasta opta por planos-detalhes para mostrar quão sutil é a feitura do mangá.

O contraste entre as duas é um dos grandes charmes da narrativa. Fujino é extrovertida e comunicativa, ao passo que Kyomoto admite sofrer de um tipo de fobia social. A arte as une e Fujino faz questão de inserir a amiga no “mundo real”. Elas não conversam muito sobre o assunto; são as escolhas de Kore-Eda e das atrizes que nos levam a essa conclusão. Nas reuniões com o editor, Fujino é simpática, enquanto Kyomoto, nervosa, mantém o corpo retraído. O plano-detalhe das mãos entrelaçadas, somado ao uso de câmera lenta, quando Fujino dá força para que Kyomoto dê um passeio na rua, é de uma sensibilidade enorme. Kore-Eda elabora quadros do mais alto grau de sofisticação, inserindo as amigas em vastas paisagens, ao som de uma trilha sonora estonteante, ressaltando a intensidade daquele laço e o universo particular em que apenas elas existem. Essa é uma questão fundamental, pois, com o tempo, Kyomoto percebe que, para amadurecer, precisa desbravar novos horizontes, inclusive para crescer como artista. Por mais dolorosa que seja, há se ter uma ruptura. A sequência poderia se valer de uma dramaticidade artificial, mas Kore-Eda investe numa encenação limpa e poderosa, cortando para planos médios na hora certa, isolando cada uma em seu respectivo espaço – o fade é o toque de mestre. 

Sem entrar em maiores detalhes, o ato final de “Look Back” está entre as coisas mais belas e arrebatadoras do ano. A força da amizade, a importância do fazer artístico, o luto e a impotência por ter consigo apenas memórias são examinados por Kore-Eda num misto de contenção e explosão imagética. Os sonhos do passado perdem significado. Furi Nanase e Rokka Okada, intérpretes das versões infantis de Fujino e Kyomoto, assim como Natsuki Deguchi e Aju Makita, que interpretam as personagens mais velhas, oferecem performances certeiras, combinando pureza e densidade emocional. 

Kore-Eda correu um risco ao adaptar um mangá tão amado e que já havia sido maravilhosamente adaptado em formato de anime. O resultado: o melhor filme de sua aclamada carreira. Pode soar exagerado, mas esse é o nível de “Look Back”, uma obra-prima que encanta por sua delicadeza e humanidade.

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