Entre os cineastas da Nova Hollywood que continuam em atividade, Paul Schrader está entre os mais regulares.
Seus últimos quatro filmes – “First Reformed”, “The Card Counter”, “Master Gardener” e “Oh, Canada” –, são bons ou excelentes. “The Basics of Philosophy”, seu novo trabalho, apresentado fora de competição, apesar da recepção pouco calorosa de boa parte dos críticos, mantém o alto nível dos filmes citados acima e dialoga intensamente com o restante de sua carreira.
Desde que escreveu “Taxi Driver” (1976), Schrader demonstra um fascínio por estudos de personagens moralmente condenáveis, atormentados por questões diversas. John é um conceituado professor universitário de filosofia que aparenta ter uma vida confortável. Após o falecimento de Melvyn, seu pai, um fantasma do passado retorna para trazer à tona sua verdadeira face e potencializar uma culpa que nunca desapareceu. Aos poucos, fica evidente que John construiu uma persona socialmente aceitável. O terno é uma fantasia e a filosofia, uma forma de buscar absolvição para seus demônios internos. Na juventude, John deu aulas de piano para Miguel, filho do jardineiro de sua família. Em um dos encontros, o protagonista fez algo errado, que poderia ter acabado com a sua vida. Melvyn não questiona o crime, mas a sexualidade do filho. E, para evitar qualquer transtorno, redesenhou sua carreira, colocando-o em contato com a filosofia. Bill Pullman, em seu pouco tempo de tela, rouba a cena, interpretando Melvyn como um homem cuja frieza e racionalidade se assemelham às de um mafioso.
Desde então, John assumiu o posto de figura racional e controlada, que pouco muda a expressão facial. Suas aulas são justamente sobre como a razão é o caminho para a liberdade, mas será que ele acredita nisso? Seu relacionamento com Rebecca, colega de trabalho, é frio e mecânico. Ela gostaria de apimentar as coisas, mas John não consegue – algo parece travá-lo. A aparição repentina de Miguel o coloca diante de si. Em um bar gay, o vermelho é intoxicante, reacendendo a chama do desejo carnal. Schrader enquadra o protagonista atrás de barras que formam uma espécie de grade, ressaltando que ele rejeita a própria homossexualidade e que está preso a um mundo de imagens pré-concebidas. Para um sujeito que fala tanto sobre racionalidade é, no mínimo, curioso vê-lo tão “vivo” nos momentos em que age por impulso. Quando faz sexo com Rebecca, a luz é verde, não vermelha – não existe tesão ali. A grande tragédia de John é a incapacidade de assumir sua versão mais genuína. Como resposta ao seu “retrocesso”, ele se vê obrigado a se prender ainda mais dentro da persona que criou. Sem essa ruptura e, principalmente, sem admitir o crime do passado, John sempre será rondado pelo fantasma – sem humildade e honestidade, não existe liberdade. Schrader, no último plano do filme, nos deixa extasiados. Será que John pode voltar a cometer atos daquela magnitude? Seria ele um potencial pedófilo em série?
O diretor investe em planos que distanciam o espectador do protagonista, posicionando a câmera atrás de portas, salientando seu caráter inacessível. Nos flashbacks, a fotografia opta pelo preto e branco, marcando o rosto de John com um alto contraste entre luz e sombra – a dualidade sempre o perseguirá. O roteiro pergunta se o ser humano é passível de mudanças. Claro que sim, mas não aqueles que agem como John. Jack Huston está ótimo no papel principal, trazendo um nível preciso de contenção e dureza.
“The Basics of Philosophy” toca em vespeiros delicados, mas é maduro e prova que Schrader segue em grande forma.




