Em 2006, o programa “To Catch a Predator”, da NBC, alcançou o topo da cadeia televisiva, sendo exibido no horário nobre americano.
Idealizado por Chris Hansen, o programa capturava predadores sexuais, que eram atraídos por meio de conversas em que a equipe simulava ser um menor de idade. O pedófilo ia até o ponto de encontro e, repentinamente, surgia Hansen. Não há dúvidas de que “To Catch a Predator” prestou um serviço importante à sociedade; todavia, a que custo?
Lance Oppenheim abre a narrativa com um plano-detalhe do protagonista, banhando em vermelho, decorando o que irá dizer no próximo episódio. Na visão do cineasta, que estreia na ficção (até agora, só tinha realizado documentários), “To Catch a Predator” é um produto pop sensacionalista, pensado justamente para chegar no horário nobre, não para ser uma “causa humanitária”. A montagem, auxiliada por uma trilha sonora pulsante, é precisa ao reforçar o dinamismo da equipe – tudo é milimetricamente calculado; não existe genuinidade. A transição do digital de alta qualidade para a estética de gravação do programa é perfeita ao imergir o espectador naquele contexto. Nesse sentido, é importante ressaltar que, embora, Oppenheim e David Bolen trabalhem com câmeras 4K, a imagem tem um aspecto áspero. A fotografia, a partir de luzes douradas, esverdeadas e azuladas (!), num estilo neon, traz a narrativa para um estado febril, ilustrando o tamanho da ambição de Hansen e a vulnerabilidade que sente quando as coisas desandam – em uma situação específica, o azul é engolido pelo vermelho, simbolizando a mudança de expectativa em relação a um contato importante. As sombras que dividem o rosto de Hansen expressam sua dualidade.
O protagonista é dono de uma retórica convidativa, mas não é particularmente afetuoso. Pai de família, ele nunca está em casa e, no único momento que tem com os filhos, coloca uma fita de seu programa, o que, além de inapropriado considerando a idade das crianças, é a prova cabal de seu narcisismo. Para sua esposa, Hansen faz promessas, numa performance que se assemelha às que faz diante do espelho, pouco antes de “capturar o predador”. Como pode o herói dos menores de idade ser um péssimo pai e um marido infiel? O início de sua derrocada é a foto tirada pelo “The Enquirer” dele com sua amante. A possibilidade de ser exposto o corrói, levando-o a uma apreensão que se estende à obsessão por levar o programa ao topo das paradas – na época, o grande rival era a série “Lost”. Hansen sabe que é considerado uma figura polêmica, tendo como único alicerce a imagem de homem correto. A partir daí, cada passo seu é mais destrambelhado que o anterior.
Um dos personagens mais interessantes é Dan Plumb, um aspirante a ator que faz uma audição para o programa sem ter ideia do que se trata. A culpa não é de Plumb; isso fazia parte da estratégia da equipe. A sequência na qual ele recebe seu primeiro papel e é pego de supetão pelo pedófilo é, ao mesmo tempo, estarrecedora e cômica. O olhar assustado e o choro posterior são marcas da indústria do entretenimento, pouco familiarizada com o termo “empatia”. Aos poucos, Plumb percebe que nunca será respeitado se continuar ali; no entanto, assinou um contrato com o diabo. Oppenheim tem um olhar apurado para close-ups, fomentando não apenas tensão e insegurança, mas uma intimidade potente. Em vários diálogos, a encenação de Oppenheim me remeteu aos trabalhos dos irmãos Safdie.
Robert Pattinson toma riscos e oferece a melhor performance de sua carreira até aqui. A modulação vocal é impressionante – parece que estamos diante do verdadeiro Chris Hansen. O ator aposta em maneirismos que expõem a fome por poder do protagonista e o quão desajeitado é com os seres humanos. Preso ao sonho americano, Hansen parece ter perdido um pouco de contato com a realidade. É uma interpretação cheia de grandes momentos, mas que se vale de uma série de escolhas sutis, que distinguem a caricatura de um sujeito patético. Merritt Wever e Skyler Gisondo são os principais destaques do elenco de apoio.
“Primetime” é um dos filmes mais estilosos do ano. É o tipo de thriller maduro que já teve mais espaço na indústria cinematográfica.




