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O Vale Imaginário (2026)

Com a tela ainda preta, surge uma inesperada e bela homenagem: “Para David Lynch”.

Um ano após ser premiado com o Leão de Ouro honorário, Werner Herzog retorna a Veneza. Ao longo de sua carreira, o mestre alemão demonstrou bastante empatia por seres desajustados, à margem da sociedade. “Bucking Fastard” é uma ode a esses seres. As protagonistas, as irmãs gêmeas Jean e Joan Holbrooke, funcionam num estado unitário, sempre fazendo, falando, vestindo e pensando a mesma coisa. Elas são tão puras quanto folhas em branco. A estranheza inicial é tanta que reagimos num misto de tensão e encantamento. 

O filme inicia no tribunal, onde as irmãs são julgadas por importunar a privacidade de Gareth, seu vizinho, com quem as duas, ao mesmo tempo, se envolveram e rapidamente se apaixonaram. Para Gareth, foi uma brincadeira; não à toa, poucos dias depois, ele se casou com outra mulher. Para as Holbrooke, foi a certeza de que o amor é uma força transformadora. Interpretado por Orlando Bloom, Gareth é introduzido na igreja: a câmera vai até ele, dominado por uma luz intensa, numa breve demonstração da subjetividade das irmãs. O grande mérito de Herzog é conseguir unir, organicamente, absurdo e naturalismo. Além das protagonistas, há personagens secundários que trazem um certo humor absurdista à narrativa. Por outro lado, o meio urbano, o funcionamento das instituições, do cotidiano, a presença de redes sociais e a própria forma como Herzog filma os espaços remetem ao naturalismo. O simples fato dele colocar as gêmeas no “nosso universo” diz muito sobre sua intenção. Se Kaspar Hauser, em “O Enigma de Kaspar Hauser”, é colocado no circo, Jean e Joan são abordadas por um jovem para tirar uma selfie – celebridades do mundo moderno, obcecado por viralização, não por intimidade e empatia. O arco das protagonistas é justamente sobre buscar um lugar melhor no mundo. Talvez esse lugar não exista. Talvez o amor que elas procuram não exista, mas a busca é constante. Herzog não quer que Jean e Joan se adaptem; pelo contrário, ele as leva a diferentes lugares, mudando a geografia do filme até chegar a um ponto em que imaginação e sonho se confundem com a realidade. 

Em uma dessas transições espaciais, as protagonistas são acolhidas por um senhor simpático. Timothy, seu ajudante, é suave ao tentar ensiná-las conceitos básicos. Como mencionei acima, não se trata de uma adaptação, de abandonar sua verdade; as Holbrooke continuarão naquela voltagem peculiar. Timothy as ensina, por exemplo, a abrir uma lata de sardinha sozinhas, sem a ajuda da outra. É um exercício árduo, mas importante para funções básicas da rotina. A cada mudança, fica nítido que as irmãs não se sentem confortáveis na cidade. Quando elas vão para a casa da tia, no meio rural, Herzog opta por planos gerais, abrindo o leque de opções, estabelecendo uma liberdade maior. “Deve haver um mundo melhor lá fora”, diz Joan. Outra frase que sintetiza o filme é: “Todo mundo deve cavar um túnel numa caverna” – leia-se, todos devem encontrar um lugar em que sua versão mais autêntica é aceita. Herzog abraça o onírico, evitando respostas, até porque elas inexistem ou não são tão importantes assim. Os sonhos nos levam a lugares que a realidade rejeita; lugares em que gêmeas uníssonas vivem plenamente. 

O trabalho de figurino merece elogios por ressaltar a ingenuidade e a doçura das protagonistas. São roupas simples, semelhantes às de princesas humildes da Disney. O mesmo vale para a trilha sonora, que, em seus temas, combina dissonância e acolhimento. As irmãs Rooney e Kate Mara estão estupendas nos papéis centrais. O nível de sincronia alcançado por elas é desconcertante. Não é apenas sobre as palavras, a velocidade com que falam e os gestos físicos, mas, principalmente, sobre uma aura inocente, frágil e intensa que transmitem. Ao olharem para a câmera, vemos muita determinação – algo salientado por Herzog, principalmente no ato final. 

“Bucking Fastard” é um lindo e delicado filme, dirigido por um mestre que é fascinado pela singularidade do ser humano.

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